
O duplo desafio do veganismo
Veganos devem olhar para outras causas ou outras causas devem olhar para o veganismo? Não há dúvida de que o movimento vegano ainda é pequeno e o que dificulta também seu crescimento é que a maioria dos humanos tem mais facilidade em olhar para causas humanas, e principalmente causas que lhes diz respeito. Por outro lado, o veganismo, em essência, não é sobre nós.
Claro que há veganos que também usam o argumento antropocêntrico “do que também nos beneficia”. Mas é inegável que o veganismo surge como a “causa do outro”, do não humano, daquele que não somos. Isso torna o veganismo uma causa bastante rejeitada também por pessoas que lutam por causas humanas. Assim, se outras causas enfrentam barreiras, a barreira do veganismo é dupla por esse estranhamento de não ser essencialmente sobre o humano.
Causas humanas também enfrentam resistência, mas não na mesma proporção de uma causa que não é sobre nós como espécie e principalmente uma causa que mostra que a grande maioria da população precisa mudar – já que o problema apontado pelo veganismo envolve um comum consumo diário baseado na exploração e no arbitrário uso de animais.
Logo, é diferente de uma causa em que você não participa do que está na contramão do interesse dessa causa. Portanto, a grande maioria dos humanos não pode dizer que não prejudica os animais (quando pode não prejudicá-los) e que não atua contra os interesses do veganismo. Isso expõe uma dinâmica bem diferente em comparação com outras causas.
Veganismo vs. causas humanas: a assimetria de engajamento
O fato de o veganismo ainda ser um movimento pequeno expõe seu lugar de menor consideração em relação às causas humanas que são abraçadas por humanos mais por uma questão de identidade (o impacto no meu viver) do que de alteridade (o impacto no viver do outro).
E o veganismo tem sua grande barreira em comparação às causas humanas porque ele já é construído sobre a base da alteridade radical, já que é prioritariamente sobre os animais não humanos.
O movimento de alteridade de um humano para outro humano sempre exigirá menos do que de um humano para um não humano quando pensamos nisso a partir de uma consideração entre veganismo e uma causa humana – porque o veganismo exige a consideração que ultrapassa a barreira das espécies e de uma forma que não soa confortável para a grande maioria.
A barreira da alteridade: do humano para o não humano
Em relação às causas humanas, ainda que haja diferenças de gênero, raça, classe ou nacionalidade, há um chão comum de humanidade compartilhada – a pertença à mesma espécie. Já a alteridade no veganismo é o salto para fora da espécie. Além disso, enquanto as causas humanas disputam quem conta dentro do círculo moral humano, o veganismo questiona o próprio tamanho do círculo. É um salto qualitativo e quantitativo de “justiça para nosso grupo” para “justiça para todos os seres sencientes”.
Não vejo um cenário em que causas humanas não levem vantagem em relação ao veganismo em termos de aceitação humana. Afinal, como deixamos claro, são sobre humanos e sobre humanos defendendo principalmente aquilo que os impacta diretamente.
Mesmo pessoas que não são atingidas pelo que está na contramão dessas causas têm mais facilidade em vê-las como legítimas (e também em participar delas) do que veem o veganismo. Esse é um ponto que mostra o quanto o especismo foi bem-sucedido na opressão contra os animais não humanos. E continua sendo porque exige uma revisão do viver cotidiano que a grande maioria não está disposta a encarar.
O especismo como hegemonia cultural: a opressão naturalizada
A prova de sucesso do especismo está no fato de que a defesa de suas vítimas é vista como estranha, extrema e de baixa prioridade perante “problemas humanos”. Essa percepção distorcida não é um acidente, mas sim o funcionamento prático do especismo como um colonialismo internalizado e não reconhecido.
Não por acaso, isso se conecta diretamente ao que trago também no artigo “O especismo é a raiz das opressões“, em que abordo como o especismo é um colonialismo – e um colonialismo muito mais amplo e que precede o colonialismo humano – e que mesmo nas discussões sobre colonialismo continua sendo excluído exatamente por ser sobre “não humanos”.
Isso ocorre mesmo com o veganismo sendo um movimento descolonizador radical, porque exige a descolonização da própria noção de que a consideração moral tem seu limite no ser humano. Logo, é a luta anticolonial que ainda não foi nomeada como tal, justamente porque nomeá-la forçaria um confronto direto com o alicerce antropocêntrico de nossas sociedades, e é mais conveniente mantê-la dessa forma.
Essa secundarização do especismo persiste dentro do framework interseccional. Sua potência crítica para as opressões nasce e se estrutura a partir de um olhar do humano para o humano. Ao tentar incluir o não humano, esbarra em seus limites, incapaz de horizontalizar a relação e mantendo uma hierarquia que ainda trata a causa animal como secundária. A teoria, portanto, encontra seu limite na prática de uma “estrutura original” antropocêntrica, herdeira direta do colonialismo animal.
Os limites da interseccionalidade para os animais
Para exemplificar isso, uso como exemplo uma pessoa dedicada a uma causa humana. Ela jamais dedicará a mesma energia a uma causa não humana. Ela pode se tornar vegana, e isso é importante e benéfico. Mas o tempo é finito e priorizamos a causa com a qual estamos mais conectados. Isso acaba, mesmo que irrefletidamente, criando uma “hierarquização da prática”.
Essa é uma construção idealizada e que pode operar até mesmo no contraprodutivo campo da sinalização de virtude – como “abraçar” todas as causas possíveis sem que realmente esteja fazendo algo por elas mais do que declarar que as apoia. Esse é outro ponto conflituoso porque, em vez de se converter em ações para reais transformações, pode se enquadrar também na performance de identidade que é mais usada como reafirmação de si – no apontamento para o outro que “não faz o que eu faço”.
Se pensamos no veganismo e consideramos uma pessoa que se dedica exclusivamente à causa – o que não significa que ela não se importe com questões humanas, mas que concentra seu tempo e energia nesse ativismo –, seria coerente dizer que sua escolha traz menos resultados para o veganismo do que a de alguém que se divide entre causas? Não parece lógico. Seria desonesto ignorar que, num mundo de tempo finito, essa pessoa faz uma escolha coerente ao focar sua energia numa causa menos considerada do que as causas humanas.
E essa decisão não passa por uma rejeição à interseccionalidade, mas por uma consideração que pode partir de um senso de justiça que pondera sobre tudo que foi elencado antes sobre o lugar dos animais não humanos na escala de consideração. O ponto é que parece mais nobre dizer que se “faz mais do que ser vegano”, como se o ativismo vegano fosse pouca coisa e precisasse se completar com outras causas. Esse é um ponto que reverbera especismo porque coloca em xeque sua suficiência – havendo nisso um antropocentrismo residual. Isso, claro, também ecoa o persistente “senso comum” da hegemonia cultural de que fala Gramsci, que nesse caso referenciamos como as consequências culturais do especismo.
A hierarquia da prática e a ditadura do tempo finito
Isso não é sobre desconsiderar a relevância de outras causas, mas questionar qualquer afirmação que vise minimizar o veganismo por ser um fim nos animais não humanos. A interseccionalidade como ponto de conexão entre causas (antiopressão) e de análise de estruturas de poder, dependendo de como é abordada, pode ser um caminho para deslocar energia de uma causa (vegana), que ainda carece e muito de energia, para outras causas que têm mais energia e motivação concentradas porque conseguem engajar mais pessoas. Afinal, são humanos agindo em relação aos seus semelhantes.
Ademais, a verdadeira solidariedade não é fazer parecer que se luta por tudo ao mesmo tempo, mas respeitar a dedicação focada dos outros e buscar pontos de colaboração – e que também podem ser táticos – sem a cobrança impossível de uma consciência e ação totalizantes. Sem dúvida, é importante o intercâmbio com outras causas, ouvir e ser ouvido, mas isso não pode significar tirar energia do veganismo para colocá-la em outras causas.
Logo, isso não é uma defesa contra a solidariedade entre causas, mas a favor do direito de uma causa tão negligenciada (a grande maioria da população participa dos problemas que ela combate) de consolidar sua base, proteger seus recursos e focar sua mensagem sem precisar se desculpar por isso. Enfim, a interseccionalidade se pensada de forma acrítica tem poucas condições de favorecer o veganismo.
O antídoto ao sectarismo: fazer o veganismo ser ouvido
Sem reconhecer a assimetria entre causas humanas e a causa vegana (antiespecismo), o veganismo sempre será deixado em segundo plano porque será a causa dos relativismos em comparação às outras causas – onde determinados lugares humanos serão protegidos quando em conflitos com determinados lugares não humanos.
Além disso, usar a interseccionalidade de forma equivocada ou condicionante pode ter exatamente o efeito oposto – em vez de unir, gera mais sectarismo. Quando isso ocorre dentro do veganismo, de veganos em relação a outros veganos, a energia se concentra no campo interno, sendo que a mudança mais importante depende do que ocorre no campo externo.
Veganos olharem para outras causas pode favorecer o veganismo, mas como o movimento vegano ainda é pequeno, a necessidade de que pessoas de outras causas olhem para o veganismo é até estrategicamente mais importante. No entanto, para que isso ocorra, pode ser necessário que veganos apresentem as razões para isso. Essa tarefa de construir pontes não exige a adoção do rótulo “interseccional”, tornando-a uma ação mais inclusiva e focada em resultados do que em performar uma identidade.
A pirâmide das opressões: a hierarquia antropocêntrica
Uma pergunta incômoda:
Por que o ônus é sempre do vegano se “conectar” a outras causas, e não o contrário? O discurso que cobra sempre do vegano que ele “se conecte” a outras causas, mas não faz a cobrança inversa, opera sob um pressuposto não declarado: existe uma pirâmide de importância das lutas. Isso revela uma hierarquia tácita de opressões, com as causas humanas sendo consideradas o núcleo central da justiça social.
Nessa pirâmide, as opressões contra humanos ocupam o topo porque são consideradas “sérias”, “políticas” e “centrais”. A opressão especista, por sua vez, é tratada como um andar inferior, um “extra”, um interesse de nicho que precisa pedir licença e provar seu valor.
Essa lógica da “extensão” é profundamente antropocêntrica e contraditória. Ela mantém o humano no centro, como a medida de todas as coisas, a quem “concedemos” direitos, de forma “graciosa”, aos outros.
Quando um crítico gasta sua energia cobrando apenas dos veganos, ele está, na prática, reforçando essa mesma hierarquia que diz combater. A interseccionalidade, em vez de ser uma via de mão dupla, torna-se um filtro de mão única que só exige accountability do grupo que questiona a norma antropocêntrica.
Há veganos que se declaram interseccionais que cometem um erro contraproducente: eles aplicam a lente interseccional apenas às consequências do veganismo para os humanos, e não à raiz do problema que é o especismo. Para melhor compreensão, recomendo também a leitura do meu artigo “O especismo é a raiz das opressões”.
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