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Veterinária relata barbárie e sofrimento em matadouro

“Uma habilidade que você domina enquanto trabalha em um matadouro é a dissociação” (Foto: Aitor Garmendia/Tras Los Muros)

Em um artigo especial da BBC Stories publicado este mês, uma ex-funcionária de um matadouro faz um relato da brutal realidade desse ambiente. A personagem que teve o nome ocultado para preservar a própria identidade diz que o trabalho a fazia sentir-se fisicamente doente, e o cheiro predominante no ar “era de morte”.

Depois de trabalhar seis anos em um matadouro no Reino Unido (2010-2016) como gerente do controle de qualidade, a mulher conta que a experiência até hoje impacta em sua saúde mental e que um de seus colegas que atuava diretamente no abate de bovinos, ou seja, como magarefe, chegou a cometer suicídio.

Ela confidenciou que sonhava em se tornar médica veterinária ainda criança, mas que trabalhar para um frigorífico fez com que a sua função perdesse o sentido, a deixando deprimida a ponto de acumular pesadelos e pensamentos suicidas.

“Uma habilidade que você domina enquanto trabalha em um matadouro é a dissociação. Você aprende a ficar anestesiado diante da morte e do sofrimento. Em vez de pensar nos bovinos como seres inteiros, você os separa em partes do corpo comestíveis e vendáveis. Isso não apenas facilita o trabalho – é necessário para a sobrevivência”, destaca.

Há fatos, porém, que têm o poder de acabar com essa dissociação. “Para mim, foram as cabeças. No final da linha de abate, havia um espaço preenchido com centenas de cabeças de bois. Cada um deles foi esfolado, com toda a carne vendável removida. Mas uma coisa ainda estava lá – os olhos deles.”

Isso fez com que a gerente de qualidade passasse a ver aqueles olhos, já sem vida, como se ainda a estivessem observando. “Alguns deles estavam me acusando, sabendo que eu participei de suas mortes. Outros pareciam suplicar, como se houvesse uma maneira de eu voltar no tempo e salvá-los. Era nojento, aterrorizante e de partir o coração, tudo ao mesmo tempo. Isso fez eu me sentir culpada. A primeira vez que vi aquelas cabeças, tive que fazer o máximo de força para não vomitar.”

Essas experiências ainda vivem em suas lembranças. “No meu primeiro dia, eles me perguntaram de forma direta se eu estava bem. Era bastante comum as pessoas desmaiarem.” Ela percebeu também que nem sempre os funcionários conseguiam suprimir suas emoções e sentimentos diante da realidade.

“Nunca esquecerei o dia, depois de estar no matadouro por alguns meses, quando um dos rapazes cortou uma vaca recém-morta para estripá-la – e caiu um feto. Ela estava grávida. Ele imediatamente começou a gritar e a abraçar.”

A gerente de controle de qualidade o levou para uma sala de reuniões na tentativa de acalmá-lo. Tudo que ele dizia era: “Isso não está certo, não está certo”, repetidamente. “Eram homens durões e raramente mostravam emoção. Mas pude ver lágrimas formigando em seus olhos”, confidenciou.

E complementou: “Ainda pior do que as vacas prenhes, porém, eram os filhotes jovens que às vezes tínhamos de matar.”

David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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  • Não consigo nem imaginar como vai ser o futuro desse planeta,com o aumento da população e industrias e fazendeiros querendo lucrar a qualquer custo. Deveria ser divulgado mais esse sofrimento para ter impacto psíquico nas pessoas e,o que ocorre é justamente o contrário,se esconde essas industrias criminosas e que exploram animais e pessoas que acabam por adoecer fazendo os abates em alta escala, e destruindo a natureza,mesmo de quem já acordou para essa barbárie.

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