Você não come carne?

Ilustração: Pawel Kuczynski

Enquanto comia sozinho no restaurante, um homem se aproximou e disse que sua presença é um incômodo. “Como? Não entendi.”

“Estou nessa mesa ao lado com a família e vi que o senhor não escolheu nenhum tipo de carne – nem mesmo peixe. Como isso é possível? O senhor não percebe que isso é um desrespeito? Isso não faz sentido. Olhe a diversidade de carnes neste lugar. Você é o único que não está comendo. Quer mesmo ser o especial? É disso que se trata?”

“Não como carne, nada que venha de animais.” “Entendi. O senhor veio ao restaurante para impor sua visão de mundo? Olhe, gente! Temos uma pessoa aqui querendo impor sua dieta para os outros. Ele disse que não come carne, nada que venha de bicho.”

Alguns ficaram em silêncio, estranhando a situação, e outros riram. “Então o senhor quer usar sua mesa com essas coisas verdes, coloridas, para mostrar que é melhor do que nós que comemos carne? É isso? Somos inferiores? É disso que se trata, meu amigo?”

Não respondeu e continuou comendo devagar sem olhar para o sujeito. “Agora você quer dizer com essas mastigadas que essas coisas aí te colocam numa posição privilegiada numa escala moral? Então sua comida é superior à minha? Você quer dizer que sou um brucutu?”

De pé, o sujeito balançava a cabeça e seu olhar ia do alvo de seu incômodo para os outros. Esperava uma reação do cliente que não escolheu nada de origem animal para o almoço.

“Você acha que somos violentos? Que somos cruéis com os animais? Vejam! Ele acha que somos bárbaros que sentem prazer com o sofrimento dos animais. Uau, cara! Você se acha o maioral, não?”

O homem voltou para o seu lugar. Parecia incomodado e comia tão rápido que engasgou-se com um pedaço de carne. Sua esposa não soube o que fazer e pediu ajuda. O cliente atacado o socorreu com a manobra de Heimlich.

Quando o homem começou a tossir, se livrando do perigo, o rapaz foi embora. No caixa recebeu um pedido de desculpas pelo comportamento do cliente que o confrontou.

Perguntaram se gostaria de uma cortesia ou que o banissem do restaurante. “Não. O problema dele não é comigo, é com algo que está dentro dele.”

 

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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