
Por que a compaixão pelos animais é especista? A compaixão é sempre tratada como um sentimento nobre. É caritativa e, por tradição, opera verticalmente: alguém em uma posição superior fazendo um bem para alguém em posição inferior, assim sinalizando também uma virtude.
A compaixão como virtude
O discurso da compaixão, mesmo que irrefletidamente, apela à ação humana em relação a outro animal como uma virtude, e não como um dever – já que um sentimento não pode ser uma obrigação. Dessa forma, essa estrutura, mesmo quando tratada como moral, não deixa de ser profundamente centrada no humano.
Pensadores do passado que defenderam a compaixão pelos animais como obrigação falharam porque mesmo na defesa do “cultivo à compaixão” não se pode garantir compaixão, que depende do sentimento. Mas se a compaixão é substituída por algo inegável, como no caso em que quem é prejudicado tem interesses em não ser prejudicado e tem interesse no próprio bem-estar, essa é uma questão de justiça e que não depende de um sentimento que surge para ser reconhecido como virtude.
Sob o modelo da compaixão, o bem-estar do animal (não humano) fica refém da capacidade emocional de um ser de outra espécie (humano). Isso, por definição, é uma relação de poder arbitrário. Afinal, a obrigação de não fazer mal a um animal e garantir-lhe o bem-estar, se dependesse da compaixão, então não teria razão de ser em sua ausência.
O paralelo humano: direitos em vez de piedade
Pense também em um paralelo humano: não queremos que os nossos direitos fundamentais dependam da compaixão que os outros possam ou não sentir por nós. Queremos que eles sejam garantidos a partir do reconhecimento de nossa dignidade intrínseca. Se assim não fosse, grupos marginalizados estariam sempre à mercê do “bom coração” da maioria.
A luta por justiça social sempre foi também uma luta para substituir a compaixão por direitos. Movimentos sociais nunca pediram “por favor, sintam mais pena de nós”. Eles exigiram: “Reconheçam nossos direitos inalienáveis”. Da mesma forma, para os animais não humanos, a compaixão os mantém no status de merecedores condicionais de consideração. E a condicionalidade é, em essência, especista.
O que soa como um absurdo ofensivo quando aplicado a grupos humanos, ainda é comum quando o assunto é a defesa de animais não humanos. Ao aceitarmos o enquadramento da compaixão, nós, inadvertidamente, rebaixamos a questão de um direito para um apelo sentimental. Transformamos uma reivindicação de justiça em um pedido de caridade. Colocamos os animais na posição de súditos eternos de nossa bondade, em vez de titulares de direitos (afinal, eles têm interesses) perante nossa ética.
A armadilha da performance moral
Devemos lembrar que a compaixão foi conceituada e moldada no âmbito das relações humanas e dentro de estruturas sociais profundamente hierárquicas. Ao tratar a compaixão como virtude, a tornamos opcional. É um ato de graça, não de justiça. E o que é opcional pode ser negado sem que isso constitua uma violação de um direito.
Além disso, quando a ação moral é enquadrada como uma “virtude” (algo que nos torna pessoas melhores), o foco se desloca do interesse do animal para o caráter do humano. A pergunta deixa de ser “o que este ser precisa?” e passa a ser “que tipo de pessoa eu sou por ajudar (ou não) este ser?” Isso transforma o ato em uma performance de identidade moral.
Encontramos diariamente muitos exemplos que recorrem ao discurso da compaixão, inclusive no veganismo. Isso ocorre porque a internalização da compaixão-virtude é tão profunda que ela influencia a percepção da ação ética sem romper com o protagonismo humano.
Se alguém pratica um ato por um senso de justiça, logo alguém enquadra sua ação como reflexo “de você ser uma boa pessoa”. Isso transforma uma postura ética e política em uma característica de personalidade. E características de personalidade são opcionais. Você não é obrigado a ser “bondoso” o tempo todo. Mas você é obrigado a ser justo.
Esse enquadramento apaga o animal da equação moral. O animal deixa de ser o sujeito cujo direito está sendo defendido e se torna o objeto que desencadeia a virtude no agente. O foco moral salta do animal de volta para o humano.
As raízes históricas de uma linguagem inadequada
Muitas pessoas reproduzem isso até de forma irrefletida porque durante séculos a compaixão foi tratada como uma linguagem moral mais acessível para falar de “não prejudicar os animais”, até por paradoxal (se consideramos a Escolástica) influência do cristianismo, já que a linguagem da compaixão se fortalece a partir desse contexto, mas em um movimento que surge para ser estritamente humano.
A linguagem para descrever a bondade para com os vulneráveis era a da caritas, da misericórdia, da piedade – sempre dentro de uma estrutura vertical de poder (Deus-Homem-Criação). Não havia espaço para “direitos” no sentido moderno, e muito menos para direitos de não humanos.
Mesmo após o Iluminismo e o surgimento das linguagens dos direitos e da justiça secular, essa nova gramática moral demorou a ser aplicada para além da esfera humana. A compaixão já estava solidificada como o reflexo cultural padrão. Tornou-se um habitus, uma forma irrefletida de enquadrar a relação com os animais.
O discurso da compaixão então ocupa um espaço que ressoa ainda hoje como consequência de uma época em que não se tinha um vocabulário robusto de justiça ou direitos para os não humanos – solidificando um apelo ao sentimento, que é inerentemente condicional.
O custo filosófico do “atalho” da bondade
O poder cultural disso também pode ser exemplificado pelo fato de que mesmo veganos podem cair no piloto automático cultural e descrever suas próprias ações e a dos outros nos termos da bondade e da compaixão, ignorando o conflito que isso estabelece com o veganismo como uma questão de justiça para os animais. Além disso, são termos que têm um potencial bastante limitado de alcance pelo condicionamento ao sentimento.
Podemos acreditar que “no momento seja conveniente falar em compaixão ou em bondade em relação aos animais”, mas ignoramos que isso não apaga o fator condicionante e ainda mantém o animal na mesma condição de subalternidade, não de indivíduo com interesses próprios e que devem ser considerados somente porque ele tem tais interesses. Agir de outra forma, mesmo que de forma bem-intencionada, reforça a estrutura mental que o especismo precisa para sobreviver.
É tentador usar a linguagem da bondade porque ela é imediatamente compreendida. É um atalho comunicativo. No entanto, esse atalho tem um custo filosófico: redefine a motivação da ação, mudando-a de “dever” para “virtude pessoal”. Não esqueçamos que os direitos humanos existem precisamente para proteger as pessoas da falta de compaixão dos outros.
Os limites práticos da compaixão numa cultura especista
Eles são uma cerca de arame farpado erguida pela razão em torno do indivíduo, para defendê-lo da indiferença volúvel do coletivo. Se a compaixão já é um terreno pantanoso para humanos, para os animais não humanos ela se torna quase um abismo intransponível, porque a ela se soma à barreira da espécie – o especismo. Não devemos ignorar que o que definimos agora como “um discurso para o momento” pode ecoar e continuar tendo consequências no futuro. O exemplo histórico disso é a compaixão.
A compaixão começou como uma linguagem “conveniente” dentro de um contexto religioso e, séculos depois, ainda é a linguagem hegemônica, impedindo a ascensão de um discurso mais sólido de direitos. E o que reforça a compaixão como “uma linguagem da virtude” é que ela é mais falada do que praticada e exatamente por sua relação com a sinalização da virtude. Ao ter sua própria raiz ancorada na virtude, esse futuro seria inevitável. A compaixão não foi “desvirtuada” pela modernidade. Ela está simplesmente operando dentro do que a sua concepção permite.
Mesmo bem-intencionados, filósofos da Grécia Antiga, assim como Voltaire, Schopenhauer e tantos outros que analisaram a nossa relação com outros animais, não reconheceram os limites da compaixão. Numa cultura dominante de uso de animais (especista), a compaixão tem limites bem claros.
O equívoco também de se insistir na compaixão como o caminho transformador para os animais não permaneceu na esfera abstrata dos pensadores; ele se incorporou na própria arquitetura do movimento em defesa dos animais. Basta olharmos para organizações que incorporam a compaixão pelos animais como marca, seja a partir do próprio nome, de seu slogan ou missão. Elas, conscientemente ou não, institucionalizam a lógica da virtude e da caridade (vertical) – o que não ajuda em uma ruptura com o que é estrutural em relação ao especismo.
Para além do sofrimento: justiça, interesses e o “mundo próprio” do animal
Ao enquadrar a defesa animal nos termos da compaixão, tornamos a consideração pelos animais uma opção baseada no nosso estado emocional, não uma obrigação baseada no interesse do animal. Não por acaso, o filósofo moral Tom Regan, mais conhecido no Brasil pelo livro “Jaulas Vazias”, já relatou que sua mudança de atitude em relação aos animais não teria ocorrido se dependesse da compaixão. Portanto, ele jamais teria se dedicado à questão dos direitos animais. E ele era só um entre muitos “relutantes” para quem a consideração de interesses dos animais não surgiria amparada nos limites da compaixão.
Enfim, ao fazer da compaixão a entrada para a consideração moral dos animais, estamos dizendo: “Seu direito de não sofrer depende da minha capacidade de sentir pena de você.” E isso ainda reproduz especismo porque torna os interesses de um grupo (não humano) dependentes dos sentimentos de outro grupo em posição dominante (humanos).
A compaixão, com seu foco estrito ao sofrimento, pode criar uma conexão mais comum em que o animal não é pensado como um ser completo com uma ampla gama de interesses. Por sua trajetória histórica e pelas associações que fazemos mentalmente, a compaixão pode fazer com que se ignore o direito do animal à sua própria existência soberana, ao seu “mundo próprio” (umwelt, para emprestar um conceito de Jakob von Uexküll), que vai muito além de simplesmente “não sofrer”.
Conclusão: da caridade à justiça – uma exigência de coerência
A linguagem da compaixão não é a solução; mesmo bem-intencionada, é uma parte refinada do problema. Ela permite até mesmo nos sentirmos virtuosos enquanto mantemos intacta uma estrutura de poder que torna os animais nossos súditos morais. A verdadeira tarefa não é aprender a sentir mais, mas aprender a pensar com mais coerência. Precisamos substituir o apelo por compaixão pelo apelo por justiça.
A compaixão pergunta: “Você se compadece o suficiente para ajudá-los?”. A justiça pergunta: “Você é coerente o suficiente para respeitar os interesses deles?” A primeira mantém o animal como um pedinte de nossa bondade. A segunda o reconhece como um portador de direitos perante nossa ética.
A compaixão é volúvel, condicional e hierárquica. Os direitos são firmes, incondicionais e anti-hierárquicos. Enquanto a causa animal falar a língua da compaixão, ela estará, na prática, concordando com o status de segunda classe dos animais. A transição para a linguagem dos interesses, justiça e direitos não é uma mera mudança de tática; é uma exigência de coerência moral fundamental. É a elevação da causa de um apelo sentimental a um movimento por direitos básicos.
Observação final
A linguagem da compaixão, que hoje é usada para incluir os animais não humanos, surgiu e se consolidou em um contexto (o cristianismo) cujo foco moral era, de fato, estritamente humano. Esse é um ponto relevante para entender por que a compaixão, mesmo quando bem-intencionada, carrega dentro de si os vícios do antropocentrismo.
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