Ao lado do estacionamento, no fundo do supermercado, abriram as portas de um caminhão frigorífico e as carnes foram descarregadas por dois homens. Eles agarravam grandes pedaços de corpos.
Quem passava perto sentia um ar frio que contrastava com o calor. No baú havia bom espaço entre as carnes penduradas, que poderiam até balançar com grande envergadura sem se tocarem. O espaço era limpo, parecia confortável, organizado.
No mesmo dia, fora da área urbana, passei ao lado de um caminhão que levava bois para o matadouro. Os animais estavam amontoados, sujos. Podia-se sentir o cheiro de excremento bovino. Alguns tentavam colocar a cabeça pra fora da carroceria. Sem dúvida, sentiam calor, e não pouco.
Já havia visto algo semelhante em caminhões que transportam outros animais para a morte, como porcos e frangos (mesmo encaixotados). Logo pensei na contradição que envolve o viver e o morrer. O corpo morto recebe o tratamento que o corpo vivo não recebe. Quem sente é tratado como se não sentisse.
O animal não sabe que seu corpo será melhor tratado depois de morto, já expropriado, porque é produto em estado adiantado de maior interesse como vendável. O pedaço morto tem a consideração que não tem a forma viva como um todo.
É como se sequer fosse sobre o animal e, na impossibilidade de não sê-lo, revela o comum das estranhezas e bizarrices do lucro e do consumo. É como dizer para tratar bem o morto, não o vivo. Assim é a coisificação do corpo.
Nesse comparativo fica claro que a vida só interessa à medida que favorece a morte. O que interessa sobre a vida é somente o que não pode ser obtido sem ela – a morte. O cuidado que recebe a carne não recebe o animal, e isso reforça ainda mais o quanto é aberrante tal realidade de exploração, lucro e consumo de animais.
Leia também “Um animal deve ser tratado como um laboratório de carne?“, “Comer carne é uma grande contradição“, “Se nossa carne também tem proteína, deveríamos ser reduzidos a alimentos?” e “Já que se come carne é preciso ver como são mortos os bois“.
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