Já que se come carne é preciso ver como são mortos os bois

Uma reflexão a partir do ensaio “O Primeiro Passo”, de Tolstói

Imagem: ARM

Tolstói escreveu no ensaio “O Primeiro Passo”, de 1892, que “já que se come carne é preciso ver como são mortos os bois”. Ele não fala sobre o tipo de transformação que isso promoveria, não faz especulações, mas um chamamento à responsabilidade de estar diante da carne como corpo em sua forma viva. É confrontar a vida pelo desejo baseado na morte.

É um chamado a ver o animal chegar no matadouro e passar por todo o processo que terminará em uma carcaça mutilada pelo desejo humano. O desejo então estaria na forma humana em confronto com o que fica da forma não humana.

É olhar para tudo que é tirado do animal pelo que se quer comer e pelo que não se quer comer – a carcaça no seu estado de mutilação, com partes faltantes que são descartadas porque não são desejadas, embora ao animal fossem tão necessárias.

É permitir ser observado pelo animal que será comido e observá-lo, sem a conveniência do distanciamento, da abstração de uma face que não pode ser reconhecida. É acompanhar seus passos e todas as suas perdas.

É testemunhar sua reticência ou resistência, sua queda violenta, seu corpo pendurado, que, fragilizado, pouco se move, e o sangue que escorre. É olhar para isso e não poder dizer: “Não é disso que participo.” O desejo humano destrói corpos, os reduz a algo a não ser reconhecido.

Sem dúvida, a distância que existe hoje entre o animal vitimado e o consumidor é muito maior do que quando Tolstói escreveu seu ensaio, já que muitos podem passar uma vida toda comendo animais sem jamais observar um deles de perto.

Humanos normalmente não gostam de observar a vida em quem comem, preferem evitá-la, e menos ainda a perda da vida; ou de refletir sobre a vida que havia no que comem. E que tempo é mais propício a isso do que o atual, quando a relação mais frequente que os humanos têm com o maior número possível de animais não ocorre de outra forma senão pelo consumo?

É como se a principal característica desses animais inobservados fosse morrer. Mesmo que a violência contra o animal não seja realizada pelas mãos do consumidor, pode o consumidor imaginar-se como sem relação com essa violência? Já que isso ocorre senão pela sua vontade.

Leia também “Como Tolstói rejeitou o consumo de animais”, “Tolstói imaginava os animais livres do transporte de cargas”, “Para Tolstói, consumo de carne é imoral”, “Quando Tolstói ficou chocado ao visitar um matadouro”, “Quando Tolstói condenou a caça e a exploração animal” e “Tolstói: ‘Não ouçam os médicos que preconizam o uso da carne'”.

Jornalista (MTB: 10612/PR), especialista em jornalismo cultural, histórico e literário e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

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