Se um boi observa um boi sendo morto, desejará esse boi ser morto? Aceitaria esse fim se dependesse dele evitá-lo? E quando há aceitação? Quem diria o contrário mesmo que o boi não passasse por essa experiência?
Se vejo esse boi de olhos arregalados e confinado para também ser esfolado, só posso imaginar o impacto da impossibilidade de escapar. Se não vivo essa experiência, e não sou o boi, claro que só posso idear.
Mas ideando não privo-me de pensar que o que é inevitável para o boi é o que torna a situação pior para o boi. Não é dada ao boi a possibilidade de fugir, e a fuga, quando existe, só é fuga pelo que é humanamente impensado.
O boi não pode fugir porque é a forma do lucro que foge, do adiamento em ser vendido para ser consumido. A vida então é irrealização pelo que no momento não pode ser não vida. É o retardo do fim, a resistência do corpo.
Se estão diante de um animal vivo e dito saudável, logo não estão mais, e então estão para de novo não estar. É um contínuo estar e não estar, de um chegar para não chegar. É um que se vá para que outro ocupe por brevidade esse lugar.
Se é somente uma imagem, também estamos diante de quem esteve aqui e já não está mais. Mas mesmo que não esteja, sua expressão não persiste pelo que demanda mudança? Quando a vida que o boi emana diante da pressão pela não vida desaparece de uma imagem que materializa a vida resistente à ausência de vida?
Ver o animal que já não vive, e que persiste pela imagética do momento, não deixa de implicar na importância do reconhecimento do que sua condição evoca. É um animal já partido, mas não continua evocando uma não partida?
Leia também “A luta de um boi que não escapou do matadouro“, “O homem que desistiu de matar boi” e “O boi não é mais do que o interesse humano?“
2 respostas
Vc é fenomenal!
Muito obrigado, Patrícia!