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“É a fila do açougue que faz andar a fila do abate”

“Tem bicho que é mais inocente, que confia. Outro não quer nem descer do caminhão ou entra querendo sair” (Fotos: iStock/Pixabay)

À distância de um braço esticado, boi e operador de abate – quem morre e quem mata. “A gente mata porque as pessoas querem carne, é assim que funciona. Ainda não é crime”, diz Fião, de 35 anos, colocando a pistola pneumática em um apoio e fazendo um gesto que imita um cliente no açougue.

De repente, para e observa outro zebu, dos muitos que enviou para a degola. Não gosta de ver sangrar. “Mas sem problema em atirar”, garante. Um tiro limpo, que penetra o crânio, pode ser o suficiente para destruir uma vida.

“Mas nem sempre funciona”, reconhece. Às vezes, tem de atirar de novo e talvez de novo. Depende da “falha mecânica” – um dardo de “má qualidade” ou outra coisa que pode escapar à imaginação do consumidor de carne.

No matadouro, um olhar também permite perceber que bovinos não são iguais. Há multiplicidade e acúmulo de reações. Quem trabalha em um sabe.

“Tem bicho que é mais inocente, que confia. Outro não quer nem descer do caminhão ou entra querendo sair. Sei lá, isso de confiança, acho que é a mesma coisa que se vê no pasto ou no confinamento, se você já visitou uma criação”, compara Fião, que trabalha em um matadouro pequeno no norte do Paraná.

“No começo, eu imaginava como pode ser”

No box, antes do disparo no topo da cabeça, o ambiente influencia a hostilidade, mas o desespero do boi, quando prevê o pior, é como se ficasse dentro do boi por falta de espaço.

“No começo, eu imaginava como pode ser, acho que qualquer um imagina. Com prática, costume, quem quer saber?” comenta. “Não quem tá aqui nem quem tá fora. Pelo menos a maioria, né?”

Ele complementa: “É a fila do açougue que faz andar a fila do abate.” Fião tem um filho de quatro anos, e os animais em quem atira e envia para a degola nasceram depois do garoto.

“É esquisito mesmo, mas é a vida, estranha, mas é a vida.” O operador de abate não come carne vermelha, ninguém em sua casa come, não pelo preço, mas porque há cerca de dois anos o ambiente do matadouro onde trabalha não inspira essa vontade.

“A gente diz aqui que é por causa do ‘impregna’, do contato com a carne”, revela com um sorriso enviesado, mas que parece esvaziado em qualquer tipo de satisfação.

“Fica impregnado em tudo, sabe?” Ele diz que acostuma a fazer o que tem de ser feito, mas sobre sentir prazer em comer carne de boi, isso não existe mais.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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