Há pessoas que se opõem ao veganismo que afirmam que o veganismo é colonialista, que seu objetivo contrário ao uso de animais é arbitrário, impositivo. Na verdade, a imposição está no que é feito com os animais desconsiderando seus interesses. Normalmente, são interesses não vitais (humanos) contra interesses vitais (não humanos).
A afirmação do veganismo como imposição é equivocada, porque a aproximação com o veganismo é sobre convidar alguém a considerar o impacto da ação humana em conflito com os interesses dos animais não humanos. O imperativo moral inerente ao veganismo depende de um processo de reconhecimento como resultado de uma conciliação feita pelo indivíduo.
É ele, na sua individualidade, que avaliará se concorda ou não e se mudará algo em seu viver. Por mais que consideremos o especismo errado, não há nada que ameace a liberdade de consideração das pessoas em reconhecer ou não se elas devem ou não abraçar o veganismo.
Há também uma afirmação de que o veganismo é colonialista por “sua origem”, por vir da Inglaterra, um país com histórico imperialista. Mas o “viver vegano” já existia antes da definição e normatização do veganismo na Inglaterra da década de 1940, se compreendemos o veganismo como oposição aos usos de animais.
Ademais, ele surge como movimento marginal em reação a uma cultura dominante de uso, exploração e violência contra animais – o que também conflitua com a afirmação do veganismo como “reprodução eurocêntrica”, sendo que sequer é um valor essencialmente ou dominantemente europeu.
O filósofo e poeta sírio al-Maʿarrī, sobre quem já publiquei, e que não tinha uma vida de privilégios e sim de grandes limitações econômicas (ainda assim, ele se recusava a escrever panegíricos, odes aos ricos patronos), já vivia no século XI o que seria chamado de veganismo e escreveu sobre sua oposição ao uso de animais. Seu pensamento sobre o assunto está na obra “Al-Luzūmiyyāt” ou “Luzūm mā lā yalzam”, em que ele explora as necessidades desnecessárias, a obrigação do que não é obrigatório.
O pensamento na Grécia Antiga em relação à oposição ao consumo de animais, incluindo Teofrasto (que seria uma influência para o filósofo moral Tom Regan, mais conhecido no Brasil pelo livro “Jaulas Vazias”) foi construído a partir de uma relação de fronteira com modos de viver no Egito e na Índia – começando com Pitágoras, que teria seu pensamento, normalmente explorado de forma reducionista, aperfeiçoado por filósofos posteriores a ele. Além disso, como observado pelo historiador François Hartog, há pesquisadores que defendem que Pitágoras era de origem síria.
A cíclica de influências que levaria mais tarde ao surgimento do veganismo na Inglaterra e na constituição formal de um movimento moderno vegano é indissociável de valores que já existiam fora da Europa e até precedente à definição de Europa. Isso tende a ser ignorado quando não se considera a complexidade histórica que resultaria no veganismo como um aperfeiçoamento do vegetarianismo ético.
Gary Francione e Anna Charlton em “Coma com Consciência: Uma Análise sobre a Moralidade do Consumo de Animais” citam o princípio da não violência preconizado por jainistas antes da emergência do cristianismo. É perceptível que era um viver que já buscava normalizar a oposição ao uso de animais, mas que foi convenientemente tratado por tantos como se não tivesse uma dimensão ética. Diversos pensadores e povos com tradições contrárias ao uso de animais tiveram suas posições arbitrariamente classificadas de forma reducionista como “místicas” ou estritamente religiosas.
Isso impactou até na depreciação e marginalização do pensamento grego em oposição ao uso de animais (a Escolástica também contribuiu para isso ao explorar o que considerava conveniente da filosofia grega), relegado a uma “filosofia menor” ou irrelevante ao cânone, favorecendo, por conveniência, a instrumentalização dos animais e a intensificação do especismo.
Até hoje as ideias de Pitágoras sobre os animais e o consumo de animais são tratadas como “místicas” (o que também é antagonizado pela pesquisadora Mary Ann Violin em seu trabalho em que defende Pitágoras como um “precursor filósofo dos direitos animais”), por sua relação com filosofias “não ocidentais” – o que é resultante da mesma lógica que promove, quando conveniente, a exotização do pensamento não europeu quando entra em conflito com interesses dominantes (Edward Said aborda como essa lógica opera em “Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente”).
Isso expõe como até mesmo o reconhecimento de um viver em oposição ao uso de animais se pensado como “colonialista”, como em críticas atuais de opositores do veganismo, é porque esses críticos, paradoxalmente, internalizaram a própria lógica colonialista para apontar algo como “colonialista”, portanto reprovável.
Assumindo a posição desses críticos, pensar o veganismo como “colonialista” é pensá-lo como se não surgisse fora de um suposto “imperialismo”. Mas se o próprio pensamento que influenciaria o veganismo vem da margem, não da hegemonia, que “colonialismo” é esse?
O veganismo opera em um sentido oposto. O favorecimento à manutenção e intensificação hegemônica está nessa negação, não no contrário (já que o uso de animais é globalmente dominante). É só observarmos o entranhamento do especismo e como sua dinâmica favorece o dominante até quando se acredita beneficiar o que não é dominante. Afinal, como o dominante não será favorecido se ele depende da mesma lógica que se acusa, por exemplo, o veganismo de ser “colonialista”? São dois aspectos que, no especismo, se retroalimentam, mesmo quando se acredita haver algum tipo de antagonismo.
Heródoto traz exemplos em sua historiografia de como alguns filósofos da Grécia Antiga encontraram povos nativos para quem o consumo e uso de animais não era prática aceitável. Schopenhauer e Voltaire forneceriam exemplos e argumentos para problematizar a exclusão da dimensão ética da atribuição de uma consideração ao mal contra os animais como meramente “mística” em “O Mundo como Vontade e Representação” e em “Pensamentos Vegetarianos” por serem provenientes de realidades marginalizadas pelo Ocidente, e também, por contradição, vistas como “primitivas” pelo mesmo Ocidente.
Esse reducionismo pode ser lido hoje como um projeto político de manutenção do especismo que dependia de uma cômoda dissociação com a razão. Portanto a própria associação com o “místico” surgia como uma “mecânica da invalidação”.
Vozes contrárias ao uso de animais foram historicamente marginalizadas em relação ao pensamento dominante, e de uma forma em que até mesmo quem antagoniza a marginalização humana passou a validar, por conveniência, a continuidade da marginalização do que é inerentemente um interesse não humano em oposição a usos e violências; como ocorre quando alguém afirma hoje que o veganismo é “colonialista”.
E afirmá-lo como “colonialista” é contribuir com a perpetuação do especismo, com a defesa de que está tudo bem em oprimir animais não humanos, e apenas porque não são humanos, ainda que tenham interesses próprios e não deixem de buscar, de alguma forma, ser expressão de si mesmos.
Gary Francione não está errado quando diz que animais não humanos foram oprimidos nos mais diferentes tipos de sistemas e sociedades humanas, uma afirmação que confronta diretamente o relativismo cultural do uso animal. Se alguém alega que há quem tenha direito de oprimir animais ou de usá-los para alguma finalidade, o faz porque não consegue se desconectar completamente de colocar interesses humanos acima de interesses não humanos.
Isso, mesmo quando reivindicado como um direito, e considerando o período em que vivemos, tende a ser, mais do que nunca, uma expressão de um interesse não vital (humano) colocado acima de um interesse vital (não humano).
Defender a exploração ou uso de animais como parte da especificidade de um povo é ignorar que a história humana é feita de transformações culturais, não de cultura como imutabilidade, mas como processos dinâmicos; e que povos adaptam ou mudam seus hábitos, criam novos. Há sujeitos que inseridos nessa realidade tendem a começar a questioná-los. Afinal, a cultura não é estática. Se assim não fosse, mesmo culturas não dominantes não mudariam também a partir de seus próprios sujeitos.
Martha Nussbaum não se equivoca no livro “Justiça para os Animais” quando observa que se as pessoas estão de fato interessadas em defender os impotentes dos abusos de poder, não há grupo de seres inteligentes e sencientes mais dominado e menos respeitado no mundo hoje do que os animais não humanos, que também possuem culturas – ainda que possamos dizer, claro, que inteligência não deve ser um critério para consideração de interesses. Mas ignorar os interesses desses animais, como ela própria aponta, é “enfraquecer ainda mais os totalmente impotentes”. Afinal, o domínio sobre os não humanos também é exercido por oprimidos humanos.
Dizer que “colonialismo” é promover uma outra relação com os animais (em que se considera seus interesses) é contraditório e ignora que a marginalização de experiências que inspiram e inspiravam um outro tipo de relação com os animais não surge por acaso, mas porque é favorável aos mesmos interesses dominantes que permitem pensar a oposição ao uso de animais como “colonialista”. Afinal, sem a legitimidade do especismo, sem sua normalização, como seria possível pensar de tal forma e ignorar o seu paradoxo?
Observações
Mesmo pensadores que não se tornaram marginais no pensamento ocidental, como aqueles que entraram para o cânone ou que hoje são muito conhecidos, incluindo alguns citados neste artigo, se em algum momento abordaram a importância de uma outra relação com os animais, ou mesmo questionaram o uso de animais para alimentação e outros fins (o que ocorreu também durante o Renascimento e o Iluminismo), tiveram esse aspecto ignorado ou invisibilizado porque não era considerado relevante à manutenção da cultura dominante, muito pelo contrário. Portanto a marginalização ocorreu também dentro da fortaleza do pensamento dominante ocidental. Quando figuras canônicas desafiavam a ortodoxia especista, suas ideias sobre os animais eram frequentemente suprimidas, minimizadas ou tratadas como uma curiosidade irrelevante.
Só nas últimas décadas passou-se a visibilizar mais essas ideias, e ainda assim com circulação bastante limitada (nichada), ou seja, que normalmente chega somente a pessoas que já buscam esse tipo de pensamento. Para a maioria, infelizmente, ainda prevalece o que é relevante à cultura dominante.
A acusação de colonialismo contra o veganismo é, na verdade, um espelho que reflete a própria lógica colonial internalizada pelos críticos.
Mesmo a defesa de práticas marginais de exploração e morte de animais beneficia a cultura dominante de exploração e morte de animais. Afinal, em vez de romper com a lógica dominante, ela a ampara ao reforçar que o interesse humano deve estar acima do interesse não humano. A manutenção do especismo depende de reforços no maior número possível de contextos – dos mais dominantes aos mais marginais.
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