Categorias: Pequenas Narrativas

Em quanto tempo um corpo morto desaparece do açougue?

Em quanto tempo um corpo morto desaparece do açougue? Penso nisso ao ver carcaças sendo descarregadas no fundo do supermercado. Removem várias e não vejo todas. Presto mais atenção em uma, reconhecendo que a unidade não é apenas sobre uma realidade nem sobre um indivíduo.

Claro, posso direcionar minha atenção à somatória, enumerar, mas observo somente uma carcaça, porque uma também não deixa de ser todas se a reflexão é sobre um processo contínuo de destruição não humana.

Um corpo morto não é completamente consumido de forma simultânea, não desaparece na mesma hora. Há uma gradualidade, e atenho-me a isso enquanto observo três açougueiros entregando partes de um mesmo animal para três clientes.

Os consumidores saem e dispersam-se, carregando pedaços de uma mesma criatura. De repente a parte desejada de um mesmo animal deixa de estar. Também sei disso porque escuto o açougueiro anunciar.

Então associo com a ausência em um corpo vivo e reconheço a impossibilidade de saber quantas partes faltam para o fim do despedaçamento daquele corpo. A disposição na vitrine, as entradas e saídas com partes maiores e menores. Cortes de facas e serra fita não trazem essa verdade.

Escuto um barulho e um açougueiro atravessa uma cortina de PVC. Vejo um corpo derribado, caído, vindo do fundo e sendo levado para um espaço contíguo. “Um corpo sem lamento”, concluo. Há corpos que caem sem evocar pesar. A culpa não é do corpo, são os signos estranhos que perpetuamos.

Os pedaços são arrancados, parte a parte, até não sobrar nada a ser engolido. Então já não há um corpo, mas há pedaços de corpo em lugares diferentes, em cozinhas diferentes, sendo engolidos por pessoas que podem ser tão diferentes em tantos aspectos, porém tão semelhantes em relação ao hábito e desejo de engolir um corpo.

Logo o corpo despedaçado some também desses espaços tão diversos, e o ato de comer um corpo repete-se, não finda, porque demandaria o fim definitivo de comê-lo. E comer um corpo então é comer sempre o mesmo corpo, ainda que não seja.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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