Categorias: Pequenas Narrativas

O que diria a galinha criada para botar ovos e terminada por sua carne?

Foto: Pexels

O que diria a galinha criada para botar ovos e terminada por sua carne? Segurou com delicadeza a cabeça da galinha, já imobilizada por outro par de mãos. Toque suave, que ainda não cortava – contrastava e dedilhava sem machucar – parecia massagem no pescoço, enganosa.

Matar galinha veio em forma de um dizer que é justo fazer sobre quem não tem mais nada pra oferecer. Deve a vida ser uma oferta? Galinha olhava pra cima. Toque deixou de ser toque. Acalmar só pra facilitar. É pela galinha ou pelo que será tirado da galinha?

Jeito de matar pra não estragar. Quem cortava, olhava só a garganta. Aberta, formava uma boca, como outra boca, que não dizia, mas comunicava sangue, que escorria pela faca e no chão pingava, devagar, abrindo-se mais.

Galinha queria se debater, sem poder. É assim. Ganhou mais volume, pelo desejo humano que era sobre estar fora. Sangue deve estar fora, para que a galinha vá embora e fique a carne. Carne também é fim do ovo.

Ficou uma cabeça caída presa a um pescoço amolecido. Olhos esvaziados. Alguém cutucou. Há libertação no corpo provisoriamente caído? Levam-no para um lugar, para outro e reduzem-no ao que querem. Ovo desaparece e com ele a galinha removida da própria carne. Pegam outra.

Leia também “Frangos e galinhas vivem pouco porque o consumo humano impede que vivam mais“, “Começou a chorar quando viu torcer o pescoço da galinha“, “A menina e a galinha morta” e “Um menino perguntou ao avô por que ele matava galinhas“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • É lamentável a hipocrisia humana....Vive a pedir Paz e faz a vida dos animais o inferno....Falam amor ao próximo....E são cruéis, até covardes justamente com.seres tão Inocentes e indefesos...Procuram justificar o Leviatã que existe dentro do próprio ser humano....

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