Onde a pistola encosta tem sombra no olho, umidade, cabelo úmido – como ninho em formação. Ali não nasce nem cresce nada. É de aspersão, higienização – limpinho pra matar, saciar (Foto: Aitor Garmendi/Tras Los Muros)

Box é caixão pra boi vivo. Laterais altas, escuridão que emerge à metade da cabeça. Ali as patas somem. Faz parecer que não existem. Um olho quase desaparece e outro fica vacante. Repetição de toda hora. Olha pra quem vê, não pra quem atira. Espera alguma coisa? Quem quer saber?

Onde a pistola encosta tem sombra no olho, umidade, cabelo úmido – como ninho em formação. Ali não nasce nem cresce nada. É de aspersão, higienização – limpinho pra matar, saciar. Pra cima das narinas, mancha é pedaço de coração meio escuro, opaco – só porção superior. Pra ver tem que perceber.

Risco de sujeira e ferida fina que mira porção de coração dá ideia de lâmina delgada, agulha longa e vai bem no meio – entre os olhos – como se tivesse descido há pouco. Consegue ver? Não é pra partir – é pra atravessar.

No topo da cabeça? Pistola parece inofensiva, de brinquedo. Tem gente que diz que lembra mistura de furadeira com bico de mangueira. Marca e modelo? Do tipo que destrói sensibilidade e identidade.

Pelos das orelhas cobrem pedaços de plástico amarelo. Fiozinhos arrepiados nas extremidades. Chifres são como dedos apontando para lados diferentes. Será que miram ausência de saída?

Não tem nome, mas tem número. Sim, no plástico. Numeração única que se multiplica com a morte. Quantos códigos de barra ganha um boi depois de morto? Carne, couro, sangue, osso, casco. Pode-se arriscar dezenas, centenas – depende do tamanho, do rendimento da carcaça.

Se juntar tudo, dá um medonho quebra-cabeças, mas que não se encaixa mais em nada – nem na vida nem na morte. E olhando pra você, o que mais mata é o que não se vê.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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