
É perceptível em supermercados a crescente quantidade de produtos enriquecidos com proteína animal. Hoje há até mesmo paçoquinha com proteína do soro do leite (whey). Há uma infinidade de novos produtos autoidentificados como “proteicos”.
Sobre eles, o domínio também simbólico é exercido pela indústria de proteína animal – já que proteína ainda tende a ser associada primeiro ao que é de origem animal. Além disso, o mercado de proteína animal exerce um controle esmagador da oferta de proteínas e de produtos com proteínas, dificultando a percepção de fontes não animais como boas fontes primárias de proteínas.
Essa oferta de mais e novos produtos com proteína animal que parece espontânea, ou somente uma reação ao interesse dos consumidores por produtos proteicos, favorece de uma nova forma a essencialização da proteína animal – ao incluí-la também em muitos produtos que antes não tinham essa proteína ou nem mesmo nada de origem animal.
Quanto mais produtos com proteínas de origem animal estiverem ao alcance dos consumidores em supermercados, mais isso servirá a um reforço de que “essa proteína” não está ali por acaso, e sim porque ela “é o que o consumidor precisa”. E mais fácil ainda será favorecer essa relação se o consumidor já estiver imerso nesse tipo de naturalização (supervalorização da proteína animal) com base em seus hábitos de consumo.
Nisso, claro, explora-se também a criação de falsas necessidades, já que mesmo muitos consumidores que sequer precisam consumir mais proteínas acabam tornando-se consumidores desses produtos. Essa também é uma consequência do fato de que nunca se promoveu tanto o consumo de proteínas de origem animal como hoje – o que se reflete no constante “enriquecimento” de produtos que as pessoas não consumiam em busca de “proteínas”. E claro que isso beneficia principalmente a indústria de proteína animal, que ocupa uma posição dominante no mercado.
Para promover esses produtos, a indústria precisa fazer o consumidor acreditar que ele não consome o suficiente de proteína. Isso entra em conflito com o fato de que o Brasil está entre os países com o mais elevado consumo médio de proteína animal do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Logo, a criação de falsas necessidades é apenas mais uma forma de obter lucro explorando principalmente inseguranças ou artificializando desejos.
Os produtos dessa indústria ocupam a maior parte dos espaços em supermercados, enquanto proteínas vegetais, por exemplo, ainda são invisíveis à maioria dos consumidores – ou sequer vegetais são pensados como fontes de proteínas. Ocupam normalmente um pequeno espaço segmentado e que não deixa de ser visto somente como “nicho”, diferentemente da “universalização expositiva” da proteína animal em sua forma ou adição diversificada, que envia uma mensagem de que “esse é o normal de todos e deve continuar sendo”.
Ao saturar o mercado com a mensagem de que “proteína = animal” e fortalecê-la por meio de uma pluralidade cada vez maior de produtos, a indústria garante que ela continue sendo a lente padrão por meio da qual as pessoas enxergam o que deve ser desejável, assim como a própria nutrição. Isso torna a proteína animal não uma escolha entre outras, mas a opção padrão, óbvia e inconsciente. A dependência então é cognitiva e dificulta ainda mais um cenário em que as pessoas a questionem como norma cultural absoluta.
Ademais, quanto mais produtos com proteína animal são lançados e consumidos, mais a cadeia produtiva se expande e se fortalece (inclusive na percepção do consumidor de proteína animal). Isso gera mais lucro, mais investimento em publicidade e mais influência política (lobby) para essa indústria. Ela se entranha na economia de tal forma que questioná-la parece ameaçar a própria estrutura econômica, criando uma dependência sistêmica.
Enfim, hoje a manutenção da “essencialização” do uso de animais é impulsionada também pelos novos usos que se faz dos animais ou do que é tirado deles. Mais produtos com proteínas animais sendo oferecidos e consumidos dificultam ainda mais afastar os animais da instrumentalização, porque isso amplia a lista de uso deles como fim no ser humano – sendo uma supervalorização que tem um impacto crescente e devastador na exploração animal.
A estratégia não apenas mantém o status quo, mas expande radicalmente as fronteiras da exploração animal, já que subprodutos animais, como a proteína do soro do leite (whey) ou a caseína, por exemplo, são inseridos como “enriquecedores proteicos” em uma infinidade de novos contextos, indo muito além de produtos em pó para shakes ou barras.
Esses produtos são oferecidos também fora da cultura fitness, não se restringindo mais a um “nicho”, quando passam a ocupar nos supermercados muitos espaços que não são direcionados apenas a praticantes de musculação ou de outras atividades físicas. Isso expõe uma estratégia de massificação total – fazendo com que esses novos produtos proteicos passem pela mesma “naturalização” na alimentação cotidiana que a carne, o leite e os ovos.
Trata-se de convencer todo mundo, desde crianças até idosos, de que sua alimentação cotidiana é deficiente e precisa ser “corrigida” com a adição onipresente de proteína animal processada. É a consolidação final da hegemonia, tornando-a não apenas uma escolha, mas o tecido invisível da própria alimentação contemporânea.
Observações
A própria palavra “proteína” foi sequestrada semanticamente pela indústria animal. No imaginário popular, “proteína” é sinônimo de carne, ovos, leite, whey, etc. Essa associação imediata náo ocorre por acaso – é o resultado de décadas de marketing intensivo e de uma cultura alimentar construída em torno do animal como “centro nutricional”. A adição de whey à paçoquinha é um exemplo dessa “colonização” de produtos que originalmente não tinham essa associação, reforçando a ideia de que a proteína animal é um componente necessário e benéfico universalmente.
Mesmo aqueles que não buscam consumir mais proteína animal, sem a devida atenção às suas escolhas, podem acabar consumindo, já que essas proteínas também são aplicadas furtivamente em uma lista cada vez maior de produtos, e nem todos trazem essa identificação em grande destaque na embalagem. Esse destaque ocorre apenas entre produtos em que o foco está em vendê-los como “proteicos”.
A Criação de falsas necessidades e a insegurança alimentar
Este é o cerne do mecanismo de marketing. A estratégia depende de um passo crucial: convencer as pessoas de que têm um déficit proteico ou que é melhor “pecar pelo excesso do que pela falta”. A indústria não está vendendo um produto para satisfazer uma necessidade real; ela primeiro fabrica a necessidade (a insegurança, a dúvida) para então vender a solução. É a clássica criação de uma “necessidade” que não existia, alimentada pela busca por otimização do corpo e saúde.
Naturalização e essencialização reforçadas pela visibilização (ubiquidade)
Quanto mais produtos enriquecidos com proteína animal estão nas prateleiras, mais “natural” e “essencial” seu consumo parece. Essa ubiquidade cria um ciclo:
- A indústria coloca o produto em todos os lugares.
- O consumidor, imerso nesse ambiente, aceita isso como a norma.
- A norma reforça a ideia de que é essencial.
- A “essencialidade” percebida justifica a produção de mais produtos.
Isso torna extremamente difícil desvincular da proteína animal o conceito de nutrição adequada, criando uma barreira cultural para o avanço de uma alimentação à base de vegetais.
A universalização expositiva da proteína animal
- A proteína animal não está confinada a uma seção: Ela é o centro do planejamento da maioria dos supermercados. O açougue, a peixaria e a seção de laticínios são, frequentemente, âncoras localizadas em pontos de grande circulação. Além disso, ela “vaza” para todas as outras áreas na forma de produtos enriquecidos (pães, biscoitos, snacks, sopas, etc).
- Essa onipresença envia uma mensagem clara: “Isso é o padrão, isso é o que todo mundo come, isso é o que uma alimentação ‘normal’ deve conter”. A proteína animal se torna o pano de fundo invisível, mas obrigatório, da dieta.
- Dificulta a descoberta: O consumidor médio, que não está procurando ativamente por opções vegetais, pode passar a vida inteira sem nunca notar a diversidade que existe, porque sua rota natural de compras nunca o leva até esses produtos.
- Retira a autoridade: Ao ser confinada a um espaço pequeno, a proteína vegetal perde a aura de “alimento sério e completo”. A proteína animal, espalhada por todo o mercado, tem autoridade e peso.
- Naturaliza a exploração: A visibilidade esmagadora dos produtos animais normaliza e torna banal o seu consumo, escondendo por trás de uma fachada de normalidade todo o processo exploratório necessário para produzi-los.
Ao monopolizar o termo “proteína”, a indústria consegue estabelecer uma hierarquia invisível das fontes proteicas:
- A proteína animal é a “proteína real”:
- Ela é posicionada como o “padrão-ouro”, a referência contra a qual todas as outras são medidas. O conceito de “proteína completa” foi associado estritamente a ela para supervalorizá-la, ignorando que para o nosso organismo o que importa são os nutrientes, não a fonte. Preterir isso faz com que se ignore o perfil de proteína completa existente em fontes vegetais.
- As proteínas vegetais são “inferiores” ou “complementares”:
- Elas são colocadas em uma categoria secundária. A linguagem comum é que são “boas, mas…”. “Boas, mas precisam ser combinadas” (um conceito que a ciência nutricional moderna já desmistificou, mostrando que uma dieta variada ao longo do dia é suficiente). “Boas, mas não tão biodisponíveis” (outro ponto frequentemente exagerado).
- Elas nunca são tratadas como a fonte principal de um prato ou produto por padrão. São a “alternativa”, o “substituto”.
- A Onipresença convalida a hierarquia:
- Quando o consumidor anda pelo supermercado e vê 50 produtos diferentes (de pães a snacks) “enriquecidos com proteína” (animal), e apenas uma pequena seção com opções vegetais (muitas vezes voltadas para um nicho específico), a mensagem subliminar é: “esta é a proteína que importa, esta é a que você deve buscar”.
Isso cria um enorme obstáculo para a educação nutricional. Desfazer esse mito requer não apenas apresentar informações sobre soja, tofu, lentilha, ervilha, grão-de-bico e feijões, mas combater ativamente uma narrativa cultural e econômica poderosa que há décadas os coloca em segundo plano.
O resultado prático é que muitas pessoas, mesmo querendo reduzir o consumo animal, podem sentir uma “ansiedade proteica” injustificada – o medo de não estar ingerindo o suficiente – simplesmente porque a fonte da sua proteína não é a que foi culturalmente canonizada como a “verdadeira”. Essa ansiedade é, em si, um produto de sucesso do marketing da indústria animal.
A Cultura fitness como canal de marketing gratuito e eficaz
A indústria não precisa convencer sozinha. Ela coopta um ambiente já predisposto a suas mensagens:
- Tradução de valores: A busca por hipertrofia muscular, definição e performance é sempre vinculada à “otimização na ingestão de proteína”, e que é quase sempre, convenientemente, pensada como animal.
- Influenciadores como embaixadores: Fisiculturistas, coaches e influenciadores fitness tornam-se os porta-vozes não pagos (ou patrocinados) da proteína animal. Eles repetem os mantras da indústria (“precisa de whey”, “frango e batata-doce é a base”) como se fossem leis nutricionais incontestáveis, para uma audiência extremamente receptiva e vulnerável.
- Internalização e reprodução: O frequentador de academia internaliza que seu sucesso corporal está intrinsecamente ligado ao consumo de shakes de whey ou caseína, frango grelhado e ovos. Ele não apenas consome, mas reproduz a mensagem para amigos, familiares, colegas e nas redes sociais, tornando-se um agente ativo de propaganda. Ele defende fervorosamente essas “verdades” porque acredita que seu próprio progresso depende delas.
É uma relação simbiótica que aprisiona o consumidor:
- A Indústria alimenta a cultura: Fornece os produtos (whey, barras, bebidas, etc) que se tornam símbolos de pertencimento à tribo fitness.
- A Cultura fitness valida a indústria: Gera a demanda, a credibilidade e a propaganda orgânica que justificam a produção em massa.
- O Consumidor é o elo perdido: Ele paga por ambos. Paga pela mensagem (academia, consultoria) e pelo produto (os suplementos e alimentos enriquecidos), acreditando estar investindo em si mesmo, quando está, na verdade, investindo no fortalecimento de um sistema que o mantém dependente.
A Criação de um “senso comum” distorcido
Dentro desses espaços (academias, redes sociais de cultura fitness), a supervalorização da proteína animal deixa de ser uma estratégia de marketing e se torna um dogma:
- A linguagem do “bulking” e “cutting”: Toda a linguagem é permeada pela centralidade da proteína animal. Dietas são calculadas em “gramas de proteína por quilo corporal”, onde a fonte padrão assumida é animal.
- A invisibilidade das opções vegetais: Raramente se vê um influenciador fitness mainstream promovendo a soja, o tofu, o tempeh ou a proteína de ervilha com a mesma veemência. Quando aparecem, são tratados como “alternativas para veganos”, e não como opções igualmente válidas e eficientes para qualquer pessoa. Isso reforça a ideia de que a proteína vegetal é de segunda categoria para objetivos sérios de composição corporal.
Expansão e intensificação da exploração animal
- Ampliação de mercado: Cria-se novos mercados para os mesmos subprodutos.
- Novas justificativas para a produção: A demanda por whey e outras proteínas em pó passa também a justificar e fortalecer a indústria leiteira, que é intrinsicamente exploratória.
- Instrumentalização ampliada: Cada nova paçoquinha, barrinha ou cereal “proteico” é mais um argumento cultural e econômico para a ideia de que os animais existem para servir aos nossos propósitos mais triviais. Enfim, isso “amplia a lista de uso deles como fim no ser humano”, dificultando imensamente qualquer avanço ético que vise reduzir ou abolir essa exploração.
Sob o disfarce de inovação e resposta à demanda do consumidor, esconde-se uma estratégia agressiva para:
- Criar insegurança onde não deveria haver.
- Naturalizar ainda mais o consumo animal.
- Expandir economicamente os mercados para subprodutos.
- Dificultar qualquer questionamento ético sobre a instrumentalização animal, já que seu uso se torna mais onipresente e “invisível” (embutido em produtos ultraprocessados).
A normalização e a dependência sistêmica
Ao saturar o mercado com produtos “enriquecidos” com esses subprodutos, a indústria alcança dois objetivos macroscópicos:
- Ampliação da dependência econômica: Mais setores da indústria de alimentos passam a depender da proteína animal barata e concentrada para agregar valor aos seus produtos. A cadeia de fornecimento do agronegócio animal se entranha ainda mais na economia.
- Dificuldade extrema de substituição: Criar um sistema alimentar alternativo que prescinda dos animais torna-se um desafio logístico e econômico ainda maior. Não se trata mais apenas de substituir a carne no prato, mas de encontrar alternativas para um ingrediente funcional que está em centenas de produtos ultraprocessados diferentes.
O Apagamento da crueldade e da exploração
Um bife é mais facilmente associado a um animal. Um shake de whey, para muitos, já é um passo removedor. Mas uma paçoquinha proteica? O elo com a exploração animal é praticamente irreconhecível para o consumidor médio. Essa é a forma mais eficaz de naturalização: tornar a exploração invisível, diluída em uma infinidade de produtos corriqueiros e aparentemente inócuos.
Em resumo, a inserção de subprodutos animais em produtos comuns de supermercado não é um simples capricho de mercado. É parte de um processo de intensificação hegemônica: tornar a proteína animal um componente tão ubíquo, tão banal e tão divorciado de sua origem, que questionar seu uso ou imaginar um mundo sem ela se torna não apenas difícil, mas quase inimaginável. É a instrumentalização animal atingindo seu ápice.
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