Mais um no matadouro. Cabeça em boa altura, olhar indefinido e cheiro também. Posicionou o instrumento contra o crânio e disparou.
Saíram duas mãos que envolveram a cabeça bovina e massagearam o topo. Não havia furo, tremura, queda nem dor. O box abriu.
Doutro lado, vacas penduradas recebiam afagos no couro antes de serem colocadas no chão. Sangue? Nenhuma gota. Concussão? Sumiu.
Só pelo escovado. Cheiro de carne crua inexistia. Vestígios de violência? Em lugar nenhum. Só galochas e aventais limpos, com olor de quem não morreu. E quem morreu? Ninguém.
Em sentido figurado, douro também é dourar que é disfarçar para parecer agradável. Então mata douro? Matar sem desagradar? Que quimera! Sim, e agora ninguém vai dourar nem matar.
Um boi atravessou o matadouro, acompanhado por olhos como pequenas criaturas querendo saltar fora. Não foi o único.
Todos os animais foram embora. Do lado de lá, alguém viu a boiada desaparecer. Pra onde? A gente não precisa saber.
Matadouro também sumiu, mas ninguém disse que viu. E precisava dizer? Não precisava. Ficou um nada, que é uma forma de um tudo. É só ver.
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