Artes Visuais

Mark Ryden transforma consumo de carne em arte sombria

“Há um horror óbvio relacionado à indústria da carne: o sangue, o gore, a carnificina desumana” (Artes: Mark Ryden)

Mark Ryden é um pintor estadunidense que criou uma controversa série de obras que tem a carne como figura central. A ideia de propor reflexões sobre a carne na sociedade humana, mesmo que sem antecipar conclusões, fez com que em parte o público se incomodasse com o seu trabalho que une o pitoresco, o onírico, o vívido, o sombrio e o enigmático.

“Penso em como a carne fazia parte de uma bela criatura viva que se tornou uma ‘substância’ inanimada que tratamos com pouca consideração ou consciência do que já foi uma vez”, diz Ryden sobre uma das razões pelas quais decidiu criar a série “Meat”.

O pintor destaca que somos feitos de energia e a nossa própria carne reflete a nossa condição física, a materialidade do existir. Mas mesmo reconhecendo isso, não vemos problema em suprimir a vitalidade de outras espécies.

“Em que ponto exato o animal cruza a linha e se torna carne?”

“Uma vez, o artista austríaco Flatz deixou cair uma vaca morta de cima de um helicóptero em Berlim. Um jovem amante dos animais tentou interromper a performance, mas o tribunal rejeitou a queixa porque a vaca tinha o status legal de comida. Em que ponto exato o animal cruza a linha e se torna carne?”, questiona Mark Ryden.

A carne, enquanto um elemento de impacto conceitual em uma obra de arte, há muito tempo desperta a atenção de pintores. Rembrandt, por exemplo, concebeu “O Boi Abatido”, obra-prima que apresenta um grande pedaço de carne pendurado em uma construção de madeira em um quarto sombrio que funciona como matadouro.

O boi foi esfolado e aparece decapitado, sem órgãos e cascos, apenas um oco cadavérico. A carcaça é iluminada por uma fonte de luz que não pode ser identificada pelo espectador. Na porta, há uma mulher com um chapéu branco, e ela parece observar tanto o boi morto quanto o espectador.

“Há um horror óbvio relacionado à indústria da carne”

“Há um horror óbvio relacionado à indústria da carne: o sangue, o gore, a carnificina desumana. Muitos de nós participamos indiretamente disso com nosso consumo voraz de carne. [A artista vegana] Sue Coe explorou esse cenário primorosamente em seu trabalho”, comenta Ryden.

Embora não seja vegano, o artista reconhece que suas obras podem despertar estranheza ou desconforto em quem consome carne, mas ele afirma que o seu papel não é julgar, mas somente observar. “Seria interessante se as pessoas tivessem que matar um animal para ganhar o direito de comê-lo”, sugere.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

7 dias ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

2 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

3 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

4 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago