Arte: Jo Frederiks

Saiu de casa para comprar carne, mas não encontrou nenhum açougue. Todos os que conhecia tinham desaparecido. Chamou a atenção de um homem na rua e perguntou se sabia de algum aberto. O sujeito riu. “Aqui não existe isso.” “Como assim? Estive em um na semana passada.” “Acho que não.”

Concluiu que era sacanagem e não comentou mais nada. “Já sei!” Passou pelos quatro mercados que mais frequentava e foi “direto ao açougue”, sem olhar para os lados. Não havia nenhum. Falou com um repositor de produtos, um segurança e a gerente. A resposta foi a mesma: “Não existe açougue aqui.”

Estranhou também que respondiam, mas pareciam não saber o que era um açougue. “Só pode ser armação tudo isso, não é possível, não tem lógica.” Voltou para dentro do mercado e foi até a seção de frios. Não havia embutidos, bacon, presunto, salsicha, salame, nada disso. Procurou ovo – também não.

O homem começou a estapear o próprio rosto e disse baixinho: “Chega disso! Chega! Acorde! Vamos, acorde!” Alguém chamou o segurança. “O senhor está bem?” “Quê?” “Seu rosto está vermelho, parece que apanhou.” “Ah! Não é nada.”

Sentiu fome e decidiu pegar um iogurte. Não havia iogurte. Não existia seção de laticínios. “Isso é absurdo! Absurdo! Não faz sentido!” Deixou o mercado dando chutes no ar, mas se acalmou quando lembrou da inauguração de uma churrascaria. “Ah! É mesmo…quase hora de almoço e pertinho de casa. Como não lembrei?”

Estacionou o carro, desceu e parou na entrada. Não deu mais nenhum passo. “Quitanda?” Sim, quitanda. Achou melhor não entrar. Voltou para casa, abriu a geladeira, pegou um copo de água e deitou no sofá.

“Que dia é hoje?” Já não sabia nem se importou em não saber. Dormiu olhando para o teto. No dia seguinte, não procurou açougue. “O que é um açougue?”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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