Um homem ficou enojado quando viu um urubu comendo carniça na beira da estrada. Se aproximou e tentou bater no animal com um galho caído sobre o asfalto quente.
“Saia daí, carniceiro. Fique longe desse cadáver.” O urubu continuou se alimentando do cãozinho atropelado, até que a situação gerou reação:
— Os seus atropelam o cachorro por falta de atenção e indiferença, o que resta é somente a carne que jaz, sem vida, e você vem me dar sermão?
— Pare de comer esse bicho aí. Deixe ele em paz. Vou enterrá-lo naquele mato ali.
— Por quê? O que restou é alimento para os meus. Dependemos disso pra sobreviver, e a vida que existiu ali se foi há tempo.
— Não! Não posso deixar você fazer isso. É muito nojento.
— Nojento? Deixe os animais apodrecendo sobre o solo e veremos se existe alguma diferença entre esse cachorro deitado sobre o asfalto e aqueles que vocês matam e comem sem necessidade.
— Sem necessidade? Você é uma piada!
— Não, senhor. Somos carnívoros, e não nos alimentamos deles para além da nossa necessidade. Comemos para viver, não vivemos para comer. Além disso, vocês são incapazes de se alimentar da carne em estado natural, o que é bem estranho. Comemos o que está à nossa disposição, sem fogo, sem tempero. Respeitamos a natureza.
— Você é louco!
— Talvez, se estamos falando de um mundo onde ser normal é matar para agradar o paladar.
— Pelo menos não como nada do chão.
— O cachorro que morreu por uma fatalidade se incomodaria menos de ser comido por mim nessa situação do que os animais que vocês agradam para depois matar em atitude traiçoeira. Afinal, o que tem de glorioso em abraçar antes de golpear?
— Não vou perder tempo discutindo com um comedor de carniça.
— Poderia dizer o mesmo sobre você, já que nós dois nos fartamos da carniça de seres sencientes.
— Eu não. Você!
— Tens razão, sou comedor de carniça. Admitir isso é sensato. Mas por que levanta a voz, range os dentes e demonstra tanto desconforto? Examine sua consciência porque a minha, bom, segue tranquila.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…