Categorias: Opinião

Bois não morrem por causa da seca, mas da crueldade de explorá-los

Li uma matéria com o título: “Bois morrem de fome e sede por causa de seca em fazendas”. Quando se fala em seca, é comum as pessoas sentirem pena dos animais, mesmo quando comem animais. Afinal, veem um boi caído e extremamente magro, como se os ossos fossem rasgar a pele, e isso não desperta nada de agradável, mesmo que haja uma contradição nessa consideração.

Ao mesmo tempo, quando se afirma que “morreram por causa da seca”, acredita-se em morte sem culpa. Então as pessoas logo pensam na seca como algo abstrato. Não entrando na questão ambiental, embora criar animais para consumo também seja uma grande causa da intensificação das estiagens, prefiro chamar atenção para algo muito comum.

A seca pode dificultar a situação dos animais, claro, há escassez de água e de nutrientes no pasto ou no que resta de pasto, mas esses animais não morrem por causa da seca, e sim porque não são alimentados e hidratados por longos períodos. A seca não surge agora e o animal morre daqui a pouco; ou surge hoje e o animal morre amanhã.

O que ocorre é que quem deixa esses animais morrer não está disposto a compensar essa ausência de nutrientes com ração, suplementação e em buscar outras fontes de hidratação – nem mesmo em levá-los para outro lugar. Quem cria esses animais para fins comerciais não quer gastar mais do que já havia determinado e tende a ponderar o “custo-benefício” em que o valor da vida do animal para o animal não entra na consideração.

Há quem prefira deixá-los morrer e porque já são criados para não viver. O que se avalia é o custo de investir não no animal, mas no que se pretende tirar do animal. Olhar para uma fazenda atingida pela estiagem e onde animais morreram de fome e achar que isso era inevitável, que nada poderia ser feito, não é coerente – é um reflexo do lugar imposto a esses animais e do valor atribuído a eles que não é sobre suas vidas.

Os animais que morrem de fome e de sede em uma fazenda são menos vítimas da seca do que da negligência, e é uma morte bem dolorosa que ressalta o quão pouco vale a vida de um animal criado para consumo, e mesmo quem lamenta sua morte favorece esse tipo de morte se não vê nada de errado nesse consumo.

Leia também “O que pensar sobre bovinos mortos por eletrocussão?“, “Em período de seca, descarte de bovinos aumenta” e “Chorou pelo dinheiro que perdeu, não pelo rebanho que morreu“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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