“Pânico 6” favorece reflexão sobre a matança de animais

No filme, assassino Jason Carvey diz que, conforme sua vítima morria, ele a percebia como “só um animal”, “só carne”

No filme “Pânico 6”, de Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin, quando o assassino imitador Jason Carvey (Tony Revolori) mata a própria professora de cinema, Laura Crane (Samara Weaving), ele relata que quando a faca a penetrou foi como se ela não fosse mais humana. “Só um animal. E cada vez que [a faca a ] penetrava, ela ficava menos e menos humana. E aí ela era só carne.”

É um discurso em que as referências do personagem sobre a experiência de matar um ser humano são reducionistas em relação ao valor humano pela comparação que ele estabelece com um não humano, e não pelo que é o não humano em si, na sua inerência, mas pelo que se normaliza em relação a outros animais – como matá-los e não ver nada de errado nisso.

Se para Jason Carvey ficou fácil penetrar a faca na professora, isso foi facilitado pela forma arbitrária e cruel como ele a via como “ser matável”, no sentido de poder ser morta de acordo com o seu interesse.

Como o animal não humano, e nisso há uma associação mais fácil com “animais matáveis”, como os criados para consumo, já é submetido há um constante desvalor pela percepção de vida instrumentalizada, Carvey não viu dificuldade em matá-la pela facilidade com que exercitou vê-la como um animal a ser abatido.

O referencial de ação dele vem do quanto ele é capaz de vê-la dessa forma. Logo ele usa a própria percepção de normalização de outra morte (não humana) para que a morte que ele deseja seja não só facilitada como trivializada, o que coincide com o seu discurso posterior.

Ele faz isso estabelecendo uma separação sobre a animalidade, porque ao dizer que chegou um momento em que ele a viu como “só um animal”, não é porque ele a reconheceu como animal que é, mas porque ela é vista por ele como um outro animal – que pode ser morto porque é comumente aceitável matá-lo.

Mas se Jason Carvey não admitisse a morte de outros animais dessa forma, ele não poderia usar tais referenciais no discurso sobre tal experiência, estabelecendo tal associação.

Não haveria essa comparação e ele não afirmaria que, depois de apunhalá-la muitas vezes, ela era “só carne”, numa alusão mais comum sobre animais mortos para consumo. Então ele neutraliza a separação entre um animal e outro somente para que faça sentido à sua estranha lógica de letal violência.

O filme está disponível no Telecine, Paramount+ e Apple TV.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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