A carne como forma de violência

Dirigido pela canadense Amelia Moses, “Sedenta de Sangue” é um filme de suspense/terror que apresenta uma cantora que se identifica como vegana e que é compelida a consumir carne por um produtor com comportamento predatório.

A partir do momento em que se alimenta de carne, Grey (Lauren Beatty) muda, ficando agressiva e violenta. Seu comportamento assume uma metáfora da violência envolvida na obtenção da carne, assim como a supressão de seus precedentes interesses.

Paralelamente à aceitação de uma ação baseada na normalização da opressão não humana, há um processo que sobre ela é uma forma invisibilizada de condicionamento assimilado como “natureza”. Assim há um exercício manipulativo de domínio sobre uma vida para que também seja possível um domínio em relação à outra.

O consumo de carne faz alusão também ao condicionamento e à negação do que sobre o outro (tornado um fim no consumo) é sua condição de vítima. A vida (outra) só é vida pelo que sobre ela é um fim na arbitrariedade humana em forma da violência do consumo.

A carne é consumida primeiro cozida, depois crua. Então ela mata um animal e o come (com o sangue ainda quente). Há um processo em referência ao que é a carne em diferentes estágios – pronta para consumo, crua e liberando líquido (resultante da mioglobina) e o animal ainda vivo. Afinal, se a carne é possível para consumo é porque a vida foi tirada violentamente de um animal.

Há um momento em que a protagonista diz “sentir-se como um animal”, mas que se é animal é pelo que era impensado nessa transformação comportamental como animal. É como se sua animalidade só pudesse ser animalidade na sua não humanidade. Há um olhar que também desconecta-se por reducionismo de uma visão convergente com sua posição precedente de vegana.

Ou seja, o processo brutalizante de desconsideração que desenvolve-se pelo consumo de carne leva à negação de que haja animalidade no ser humano, mas somente nos outros animais (ou por um processo de hibridação), no “sentir-se como outro animal”.

Logo o que é brutal em relação a nós só pode ser na mimetização de outros animais, e preterindo que o extremo está na comum violência “racionalizada” e justificada por sua prescindível normalização por meio do consumo.

O filme está disponível no Prime Video.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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