Thomas Lovejoy: “Um dos maiores problemas [da Amazônia] é o desmatamento motivado por atividades agropecuárias”

“Infelizmente, a pressão sobre a Amazônia está cada vez maior. Os lugares de maior risco são o sul e o sudeste [regiões do Pará, Mato Grosso e Rondônia]"

“Se esse ciclo hidrológico se romper, poderá gerar um ponto de inflexão que resultará na conversão de partes da floresta tropical em savanas secas ou até mesmo em caatingas” (Foto: Divulgação/Birdlife)

Apelidado de “Padrinho da Biodiversidade”, o ambientalista e biólogo norte-americano Thomas Lovejoy trabalha na Amazônia há mais de 50 anos. Ele falou recentemente ao Banco Mundial sobre as pressões que a região enfrenta e os motivos para protegê-la, além de defender que a Amazônia precisa ser gerida como um sistema integrado e com decisões ponderadas e graduais.

“Poucas pessoas sabem que a Amazônia produz cerca de metade de suas próprias chuvas, além de levá-las até o sul da Argentina, contribuindo para a produção agrícola. Se esse ciclo hidrológico se romper, poderá gerar um ponto de inflexão que resultará na conversão de partes da floresta tropical em savanas secas ou até mesmo em caatingas, além de afetar negativamente as chuvas e a agricultura em toda a América do Sul”, declarou.

Lovejoy e o cientista climático Carlos Nobre, autor de estudo que revelou no ano passado que o total da área desmatada na Amazônia já chegou a um milhão de quilômetros quadrados, defendem que esse ponto de inflexão está muito próximo e que as secas de 2005, 2010 e 2016 já são os primeiros sinais dessa mudança

“Infelizmente, a pressão sobre a Amazônia está cada vez maior. Os lugares de maior risco são o sul e o sudeste [regiões do Pará, Mato Grosso e Rondônia], mas também há pressões surgindo em novos locais. Um dos maiores problemas é o desmatamento motivado por atividades agropecuárias”, declarou o biólogo norte-americano.

E acrescentou: “O desenvolvimento da infraestrutura também é uma grande ameaça, especialmente se alguns projetos continuarem do jeito que estão. Precisamos pensar em alternativas e trabalhar com os governos estaduais para criar modelos de desenvolvimento sustentável que preservem a floresta.”

Thomas Lovejoy defende que o futuro da Amazônia está no desenvolvimento de bioeconomias sustentáveis, na importância dos agricultores serem remunerados por atividades que protegem a floresta:

“Cidades sustentáveis também são essenciais, mas exigem um planejamento cuidadoso e criativo. As atividades econômicas em Manaus, por exemplo, usam em grande parte materiais não provenientes da floresta. Precisamos iniciar um diálogo sobre o que as cidades devem fazer para trazer benefícios reais para as suas populações, com muito menos impacto sobre as florestas.”

Segundo o ambientalista, a infraestrutura de baixo impacto é outra solução. E cita como excelente exemplo a elevação das rodovias na região da Mata Atlântica.

“A linha de transmissão projetada entre Manaus e Roraima não teria um impacto tão forte se o projeto atual (em linha reta) fosse alterado e seguisse a rodovia já existente no local, evitando novos desmatamentos e transtornos para os povos indígenas. Da mesma forma, precisamos pensar em como produzir energia não fóssil a partir de barragens hidroelétricas de forma a preservar os fluxos de sedimentos e os trajetos de espécies migratórias como os grandes bagres, cujo ciclo de vida se estende desde o estuário até as cabeceiras.”

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