Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

Um olhar a partir do filme “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer um crime, começa a trabalhar em uma fazenda como parte de um projeto de reabilitação socioeducativa de jovens. Em uma das cenas, Louise (Victoria Bluck) explica a ele que é preciso manter a temperatura do leite de vaca em 38 graus para dar aos bezerros separados da mãe. E Ahmed participa dessa separação.

A ilusão após a separação que envolve o bezerro e a vaca 

É uma cena tratada como banal, mas que representa muito bem a realidade especista. A temperatura deve imitar o calor do úbere da vaca, ou seja, mimetizar algo em relação com a mãe que os bezerros já não podem mais sentir. Nisso, há, paradoxalmente, um esforço técnico para “simular um cuidado” que foi negado ao remover justamente a verdadeira fonte desse cuidado (a mãe).

Há uma ilusão de continuidade que tenta apaziguar tanto o bezerro (fisicamente) quanto a consciência humana (moralmente). Há uma “preocupação” em controlar a temperatura, mas que surge para justificar a própria validade da separação – um fim na instrumentalização.

Portanto, ao receber o leite em baldes, há uma experiência fria que evidencia que o leite já não é essencialmente para eles. Ainda assim, a temperatura é simbólica para criar uma ilusão para o bezerro após a separação.

Quando acaba o leite, um dos bezerros fica chupando o dedo de Louise. Ela vê isso como “engraçadinho” porque ele tem fome, mas para o bezerro não é uma experiência terna, mas uma evidência das limitações impostas a ele nessa relação arbitrária. Esse é um exemplo que evidencia a desconexão entre percepção e ação de quem está na posição de domínio e de quem está na posição de dominado.

Há três elementos que fortalecem a “normalidade” desse ato e o motivo pelo qual Louise não vê nada com estranhamento, assim como muitas pessoas não veriam se acreditam que bovinos existem para servir aos humanos – os mecanismos do habitus (Bourdieu), a dissonância cognitiva (Leon Festinger) e a desconexão moral (Albert Bandura). E os três corroboram a naturalização do especismo no contexto da hegemonia cultural (Gramsci).

A naturalização do especismo: habitus, dissonância cognitiva e desconexão moral 

Sendo o habitus o conjunto de disposições internalizadas por meio da socialização que orientam percepções, ações e reações de forma aparentemente “natural”, para Louise, trabalhar na fazenda, separar bezerros das vacas e alimentá-los com baldes é parte de um campo social e profissional onde essas práticas são normativas, rotineiras e economicamente necessárias. Portanto, o habitus é um elemento não apenas de normalização por continuidade geracional como de legitimação prática dentro da cultura especista.

Para ela, o ato de separar o bezerro, medir a temperatura do leite e alimentá-lo não é uma sequência de decisões éticas ponderadas. É uma “prática incorporada”. Seus gestos são fluidos, precisos e automáticos – fruto de um saber-fazer corporal aprendido. Essa fluidez naturaliza a ação, tornando-a tão óbvia quanto respirar. A legitimação não está num discurso, mas na eficácia do gesto realizado sem hesitação. O corpo que executa a tarefa sem questionar é um grande legitimador do sistema.

Ademais, o próprio ato de Louise de sorrir constantemente, e de ter um comportamento que parece evocar de forma predominante a gentileza e de tratar a própria atividade somente como positiva, serve à negação da prática como violência – algo que pode ocorrer até de forma irrefletida, considerando os três elementos citados. Assim, podemos reconhecer que ela, de certa forma, personifica a empatia corrompida que é o pilar psicológico do especismo. Louise, em suas ações, nos mostra que o maior obstáculo não é a crueldade ativa, mas a incapacidade estrutural de conectar até mesmo o afeto individual com a violência sistêmica.

Devemos lembrar que a dissonância cognitiva ocorre quando há um conflito entre crenças/valores e ações, gerando desconforto que precisa ser reduzido. Muitas pessoas valorizam a “bondade” ou a “ternura” com os animais, mas participam de sistemas que causam sofrimento animal. Para reduzir a dissonância, Louise (e a audiência que não se incomoda com a cena) pode minimizar a importância do evento (como ela age quando o bezerro chupa seu dedo) e justificar a prática (focar no sistema como fim econômico ou mesmo e, por contradição, como reabilitador).

Já Bandura, sobre a desconexão moral, descreve mecanismos que permitem que pessoas boas pratiquem ações moralmente questionáveis sem sentirem culpa. Na cena, vários mecanismos estão em ação, já que a prática ganha uma conveniente justificativa moral ao enquadrar como “cuidado” o ato de manter o leite “na temperatura ideal”, incorrendo em uma distorção das consequências – o foco na técnica (controlar a temperatura) em vez do trauma da separação.

E, claro, assim como na dissonância cognitiva, temos a desconexão moral também fortalecida sob a ideia da “reabilitação” (tanto para Ahmed quanto a partir da crença de que é um processo em que os bezerros participavam ativamente, mesmo que não seja uma escolha deles e sim o resultado do domínio sobre eles). Há também a “desanimalização” no processo em que uma necessidade psicológica frustrada é romantizada pela perspectiva humana – ganhando um recorte positivo sob a ação humana, já que o impacto negativo não é sobre a experiência humana.

O próprio especismo é uma hegemonia

E como a hegemonia é o domínio cultural e ideológico que faz com que as normas do grupo dominante sejam aceitas como “naturais” e “óbvias” por toda a sociedade ou pelo menos a grande maioria dela, não podemos ignorar que o próprio especismo é uma hegemonia. Nesse contexto, opera a partir da ideia de que bovinos existem para servir aos humanos. Logo, está tão arraigada que não é questionada – é senso comum.

A cena retrata justamente a reprodução dessa hegemonia por meio das instituições (a fazenda é parte de um sistema econômico e social que reflete a normalização da exploração animal também por meio da socialização). Ou seja, Ahmed está sendo “reabilitado” inserindo-o nesse sistema, aprendendo suas normas como válidas. E por meio da cultura material – o balde, o termômetro, a técnica –, tudo isso materializa a relação de dominação como “progresso” em forma de um suposto “bem-estar”, não como violência.

A normalidade da cena que envolve jovens humanos e bezerros é justamente o que a torna poderosa. Ela espelha o quanto nossa sociedade, por meio de mecanismos psicológicos e culturais, fabrica a indiferença e prepara sua manutenção geracional. A fazenda, então, não é apenas um cenário, mas uma microinstituição onde o especismo é reproduzido diariamente, e onde personagens como Louise e Ahmed são tanto agentes quanto produtos dessa estrutura.

Intrigante também é que a fazenda, sendo um espaço de reabilitação de jovens que cometeram atos infracionais, e que também são jovens marginalizados, permite-nos pensar numa outra camada de marginalização – do não humano, que é marginalizado por sua condição não humana, e assim deve servir a interesses humanos de reabilitação ao custo da manutenção da sua marginalização não humana numa hierarquia intocada de domínio. Há inclusive um momento em que o juiz diz a Ahmed que “trabalhar na fazenda” tem sido um bom processo de reinserção social de jovens.

Portanto, a “segunda chance” de Ahmed e dos outros jovens é financiada simbolicamente e materialmente pela negação de qualquer chance aos bezerros de viverem suas vidas conforme suas necessidades etológicas. A hierarquia moral intocada é justamente o pré-requisito do projeto: para reabilitar humanos, deve-se primeiro reafirmar a normalidade e a naturalidade do domínio humano sobre o não humano. O jovem em conflito com a lei humana é reintegrado ensinando-o a aplicar “a lei especista”.

Assim, a “reabilitação” de jovens humanos na base social é financiada pela reafirmação de sua supremacia sobre uma base ainda mais baixa: a dos animais não humanos. A sociedade, portanto, cura suas fraturas internas (a criminalidade juvenil) reforçando seu alicerce mais profundo e violento: a exploração animal.

Por fim, essa análise revela que a crítica ao especismo não é sobre “mau comportamento individual”, mas sobre desmontar sistemas de pensamento e prática que tornam a crueldade banal. O filme, por meio de seu realismo cru, e independentemente da intenção dos irmãos Dardenne, nos permite estranhar o familiar e enxergar a violência por trás da rotina romantizada.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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