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Vitela é impedir que o bezerro seja bezerro

“Vitela” é um termo estranho quando não se pensa em vitelo como bezerro. Vitela então parece ser somente “vitela”, que surge como “vitela”. Vitela como carne, como pedaço, como uma não face, um não corpo. Vitela como carne macia, especial, premium. Vitela como carne mais clara. Vitela como pobreza de nutrientes para o bezerro.

Vitela como um corpo a quem se impede o exercício. Vitela como um corpo confinado num pequeno espaço. Vitela é impedir que o bezerro seja bezerro e, que, nessa contradição, não deixe de morrer como bezerro. Vitela é o que faz o bezerro lamber as grades na tentativa instintiva de reparar uma deficiência nutricional. Vitela não é um pedaço de infância?

O bezerro não deve mover-se muito para não comprometer a carne. Não deve desenvolver saudavelmente a musculatura. Deve ser um tipo especial, estupendo, de exploração. Dizem que o bezerro não será morto (imediatamente) na indústria leiteira. Comemoram. Mas ignoram que será morto meses depois, quando o corpo estiver bom para ser cortado apenas deslizando a faca. Sim, o corte deve ser fácil, sem empecimento.

O quão satisfatório é esse viver? Um prato especial num restaurante; pedaços num açougue gourmet ou para exportação. O bezerro é simbólico do que é impeditivo de um adequado viver, porque nada em relação a ele é sobre viver. É destruído em vida, vão moldando-o como carne (só pode sê-la) – o tipo de cor, o tipo de textura, a palatabilidade…o valor agregado a essa contumaz privação.

Assim as privações ocorrem também por um interesse estético, a forma da carne, como ela é percebida pelos olhos e como se apresenta ao toque. Quantos centímetros de espessura? Uma coloração uniforme? E o encontro com a língua? Deve haver uma arbitrária perfeição na homogeneidade.

Há um ofuscar do que é insuperável, a crueldade imanente e a morte. Vitela também é solidão. É isolar e determinar um fim que surge como preparação para outro, e próximo, fim. Vitela é tirar o bezerro do bezerro. É submeter. Não há beleza e nada que possa ser romanceado sobre isso. É capricho. É maldade. É vileza pela desnecessidade.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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