Sobre dominar animais e matá-los

Foto: Unparalleled Suffering

“Uma morte pacífica para um animal pacífico”, ouvi uma vez. Não era sobre um animal morrer distante da ação humana, mas pela ação humana.

Alguém olhou o animal de perto e disse que trazia “expressão serena” e que “provavelmente nada sofreu”. A “expressão serena” era uma percepção particular e além, do condicionamento e do agrado.

Quem mais enxergou a “expressão serena”? A afirmação foi baseada no que chamaram de “habilidade”, palavra que ouvi três ou quatro vezes em sequência.

Notei que a “habilidade” não era tão importante para eles, mas que pudéssemos crer que houve um processo de morte concretizado pela “habilidade”, e que deveríamos focar-nos mais na “ideia de habilidade”. A ideia deveria prevalecer mais do que a ação.

Então apontaram para alguém que diziam que “fazia morrer sem sofrer”, que abatia animais em datas comemorativas, festividades. Sua “habilidade”, reconheci, era citada também como vocábulo de perpetuidade.

“Onde há um ‘habilidoso’, não há nada além de sua própria ‘habilidade’?” “Quantas ações podem ser justificadas pela ‘habilidade’? A ‘habilidade’ esvazia a arbitrariedade?” – e continuei refletindo.

Percebi que o animal e a consumação de sua morte tornaram-se elemento menor por trás da “habilidade”, onde esconderam o animal.

Imaginei as cinco sílabas caindo no chão e juntando-se, maior que o animal, e cobrindo-o, ao mesmo tempo em que seu corpo sem vida era pressionado contra o chão.

Ele desaparecia, surgia outra vez e era dominado, já sem sentir a dominação, e para ser descarnado. Fiquei pensando em como entre o imaterial e o material estranhos trânsitos também são estabelecidos, por conveniências e outras coisas. A constatação varia com a disposição?

Horas depois, ainda falavam da “habilidade”, e não vi mais o corpo do animal, que sumiu antes da palavra.

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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