O abate que (quase todos) ignoram

Uma reflexão sobre matar animais para comer a partir do livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee

O abate que (quase todos) ignoram
Foto: FTP

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos anos do Apartheid na África do Sul, a senhora Curren, quando descobre que não tem muito tempo de vida por causa de um câncer, decide conhecer mais a realidade ao seu redor na Cidade do Cabo, onde sempre viveu fechada em seu próprio mundo.

Em uma dessas experiências, que chamam a atenção dela para os seus próprios privilégios, ela se depara com homens marginalizados impondo violência a outros marginalizados (não humanos). São homens como William, o marido de Florence (mulher que trabalha para ela), que se projetam para a violência direta contra os animais a partir da própria violência material.

Por 300 rands por mês mais a alimentação, William é quem “prepara frangos para o abate”. Ele faz o que a senhora Curren não seria capaz de fazer. É algo que podemos paralelizar com a mulher do ensaio “O Primeiro Passo”, de Tolstói, que diz ser “sensível demais” para ver a morte dos animais que ela não deseja parar de comer. É um exemplo da visceralidade paradoxal e ao mesmo tempo irrefletida dos mecanismos do habitus especista.

Dissociar a morte dos animais da própria experiência de consumo 

Ainda assim, a senhora Curren admite que aqueles homens não estão ali por acaso, mas como resultado de uma demanda também sustentada por ela. Exemplo disso está no reconhecimento de que “alguns dos corpos que ela recheara com pão ralado, gema de ovo, sálvia e esfregara com azeite e alho” podem ter vindo dali. Ela não é capaz de dissociar aquela experiência da sua própria experiência de consumo.

A senhora Curren não demoniza William porque conclui que o que ele faz se insere no habitus, e são aqueles mantidos nos pontos mais baixos da hierarquia social que farão “o trabalho” que muitos não querem fazer, mas querem que outros façam por eles. Ignorar isso seria ignorar a própria e grande cadeia que sustenta o habitus dominante.

Ainda assim, a experiência é menos edificante para a senhora Curren do que chocante. Portanto, se a mulher de “O Primeiro Passo” de Tolstói, não viu o que sabia que teria se arrependido de ver, a senhora Curren viu o que se arrependeu de ver – porque “atacou” diretamente o seu habitus, sem que ela estivesse preparada para esse “ataque”.

Mesmo que a senhora Curren expresse um arrependimento quando diz primeiro que “viu tudo isto antes de ter tempo ou presença de espírito para se perguntar se queria ver ou não” e depois que “devia ter ido logo embora, assim que viu como aquilo era”, que são honestas expressões de uma tentativa de apagamento e não de negação, isso se insere mais em uma reação emocional que não poderia ser outra, a não ser descontentamento, do que capacidade de consumar a irrealização dessa experiência, pelo que não pode ser reversível. Isso toca no próprio âmago da protagonista, porque antes o pretexto de negar, como faz a mulher de “O Primeiro Passo” poderia ser uma concretude baseada no não testemunho. Mas isso agora foi tirado da senhora Curren, abstraindo dela o sentido de uma velada hipocrisia.

O ponto mais dilacerante talvez seja exatamente, por parte dela, não projetar a culpa em William por fazer o que faz, já que ela reconhece a precariedade da realidade dele e ainda complementa que enquanto ela dorme, ele se levantava às cinco da manhã. “Para lavar à mangueirada o fundo das gaiolas, encher os comedouros, varrer os barracões, e depois, após o café da manhã, dar início ao abate, ao depenar e eviscerar, à congelação de milhares de carcaças, à embalagem de milhares de cabeças e patas, quilômetros de intestinos, montanhas de penas.”

Podemos perceber que sua descrição é carregada de uma “enormidade”, de um fluxo veloz, e que nesse recurso estilístico de Coetzee reflete também a normalidade e celeridade dessa violência. Tudo é rápido demais porque mortes de animais são como um infinito fim.

Não há abate de animais sem demanda por esse consumo

E a senhora Curren parece viver o dilema de não atribuir culpa, mas ao mesmo tempo não entender como William faz o que faz – porque mesmo que ela seja parte do problema, e a parte mais importante, já que não há abate de animais sem demanda por esse consumo, o julgamento é o refúgio humano na tentativa de tentar minimizar a própria culpa. Ao fazer isso, ela desvia o foco da fácil “maldade individual” para a máquina social que os envolve.

O que também se apresenta como um mecanismo que segue na mesma esteira é que ela não vê William matando diretamente os frangos, mas conclui que ele também o faz: “Seis dias por semana, era isto que ele fazia. Atava patas de frangos. Ou talvez se revezasse com os outros homens e pendurasse também frangos em ganchos ou cortasse cabeças”.

Enfim, sua extensão conclusiva também projeta uma proximidade em que ela vê necessidade de pensar na relação do outro com a violência mais do que na sua própria. Ao projetar isso em um rosto conhecido, William, ela consegue materializar melhor sua ânsia por uma impossível fuga.

Sua própria relação é mediada, distante, limpa. A relação dele é direta, suja, corpórea. Mas ao estar ali, essa separação sofre uma diluição, se a segunda não existe sem a primeira e é exatamente a razão da primeira – porque ela já não pensa sequer o consumo com o seu próprio, mas como algo ubíquo pela força do habitus dominante.

“Devia ter-me metido no carro e feito os possíveis por esquecer. Mas em vez disso deixei-me ficar junto à vedação de rede, fascinada, enquanto os três homens davam a morte àquelas aves incapazes de voar. E ao meu lado a criança, dedos agarrados à rede, absorvia também o espetáculo.”

Em várias passagens da obra, nos deparamos com esse conflito constante da senhora Curren entre testemunhar ou não testemunhar – sendo o não testemunhar já uma impossibilidade, ainda que somente uma ideação que vai e volta. Seu testemunho também a incomoda porque é expressão de que, mesmo em outros lugares, as diferenças são de técnicas e métodos, não de fins.

A anatomia de uma violência universalizada

“O seu trabalho era deitar a mão a um frango, virá-lo de cabeça para baixo, prender o corpo recalcitrante entre os joelhos, atar-lhe as pernas com um arame, e passá-lo a um segundo homem, mais novo, que o pendurava, a cacarejar e a bater as asas, num gancho da ruidosa calha que corria acima das suas cabeças e que o transportava até ao fundo do barracão, onde um terceiro homem, de fato de oleado salpicado de sangue, lhe agarrava a cabeça e lhe puxava o pescoço, cortando-o com uma faca tão pequena que parecia fazer parte da sua mão e arremessando no mesmo gesto a cabeça para um barril cheio de outras cabeças mortas.”

Essa descrição poderia ser lida como uma prática isolada. No entanto, o universal não se apaga com o específico. Na verdade, ele o amplifica por sua própria materialidade, já que o imobilizar, o pendurar e o sangrar até que vida já não reste são sequências universais desse rito inserido no habitus dominante. Há nessa descrição uma anatomia de uma violência universalizada. Afinal, também não podemos ignorar que há menos pessoas matando animais do que comendo. Sendo assim, onde se concentra o núcleo mais amplo de participação?

Por meio da senhora Curren, Coetzee também expõe a seletividade de consideração com base em características que prezamos sob critérios especistas em relação a outros animais. Exemplo disso está no fato de que a protagonista de “A Idade do Ferro” tenta minimizar o impacto do que testemunhou ao comparar as aves com animais por quem se pode ter maior consideração consequencial. Enfim, há uma constante luta em que ela aceita a responsabilidade ao mesmo tempo em que tenta relativizá-la. Nisso, há uma disputa interminável sobre o ser na sua relação consequencial com o fazer:

“Pelo menos não é gado que ele abate, disse eu para comigo; pelo menos são só galinhas, com os seus olhos desvairados, galináceos, e a sua mania das grandezas.” A senhora Curren não apenas eleva o gado (ainda que ela própria seja consumidora da carne desses animais) para tentar reduzir o efeito do que testemunhou como atribui às aves um olhar minimizador baseado em uma pejorativa construção pessoal que ela fala como se fosse universal. Ela ainda resiste em ver a ave pela perspectiva da ave, ainda que não possa se livrar do testemunho do que é ser a ave para a ave.

Suas colocações depreciativas também podem ser menos o que ela realmente pensa e mais uma reação momentânea como mecanismo de autopreservação. Afinal, pouco sentido faz o que ela atribui aos galináceos. E a a fraqueza dessa reação, na sua espontaneidade, é o que ratifica isso. Ela não está raciocinando, está gaguejando moralmente.

Enfim, a senhora Curren recorre à hierarquia como último recurso, e a hierarquia se desfaz. O que resta, após esse pensamento fraco evaporar, é o horror puro, não mais filtrado por nenhuma hierarquia tranquilizadora. Assim, também concluímos que A “Idade do Ferro” do título não é apenas a do apartheid ou a do corpo canceroso da senhora Curren. É a da consciência desnuda, desprovida das ilusões que a protegiam.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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