
Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há uma defesa no meio vegano de que o fim da escravidão só se concretizou por fatores econômicos e que o mesmo ocorrerá com a exploração animal. Essa comparação economicista pode parecer coerente e poderosa para muita gente, mas é essencialmente simplista e equivocada.
É uma narrativa que agrada quem quer vender a ideia de que “o mercado sempre encontra um jeito” ou que “a ética é consequência da viabilidade”. Mas, se olhamos para a própria escravidão, é uma leitura que não resiste a um exame histórico mais cuidadoso. A historiografia mais séria (com autores como Eric Williams, David Brion Davis, Seymour Drescher e, no Brasil, Joaquim Nabuco e José Murilo de Carvalho) mostra um quadro muito mais complexo.
A escravidão não foi desmontada por senhores esclarecidos que viram uma oportunidade de mercado. Ela foi desmontada, primeiramente, pela resistência incessante dos escravizados: fugas, revoltas, formação de quilombos. Essa pressão constante tornou o sistema instável, caro para manter (em termos de vigilância e repressão) e moralmente insustentável. A economia só “se adaptou” e passou a ver viabilidade em trabalhadores assalariados (que consomem e geram mercado) a partir disso – portanto, foi reativa.
É também desrespeitoso atribuir vitória ao economicismo, porque isso ignora a própria agência dos escravizados e suas articulações de luta. Ao crer nisso, há um processo de desconsideração porque os trata como uma variável passiva em uma equação resolvida por “senhores e mercados”. Há nisso não apenas um erro factual como uma violência simbólica contra a memória dos que lutaram.
Podemos lembrar também que o movimento abolicionista na Inglaterra foi um dos primeiros grandes movimentos sociais de boicote da história do Ocidente (o boicote ao açúcar produzido por escravizados). O movimento moral e político criou uma nova consciência na sociedade. Pessoas comuns, movidas por convicções éticas e religiosas, pressionaram o parlamento e mudaram a lei contra os interesses econômicos dominantes da época. Os britânicos aboliram o tráfico em 1807 e a escravidão em 1833, apesar de a economia do Caribe ainda ser lucrativa, e não porque tinha deixado de ser.
Além disso, em nenhum país escravocrata a abolição foi uma “pacífica transição de mercado”. Foi uma batalha nos tribunais, nos parlamentos e, em muitos casos, nos campos de batalha. Basta lembrarmos da Guerra de Secessão (1861-1865), que foi o conflito mais mortal da história dos Estados Unidos, com o Sul resistindo ao fim da escravidão. Outro exemplo foi a Revolução Haitiana (1791-1804), onde um exército de ex-excravizados (autolibertos) derrotou as forças de Napoleão na então colônia mais lucrativa da França. A revolução ficou conhecida como a maior revolta de escravizados das Américas. De uma forma ou de outra, os interesses escravocratas em qualquer lugar do mundo não cederam porque apareceu uma máquina mais eficiente; eles tiveram que ser vencidos. Se a vitória dependesse apenas de um cálculo econômico, então nada disso teria ocorrido. Não haveria resistência, porque a própria resistência é em si cultural e precede o econômico.
Adaptação econômica surgiu com pressão política, moral e insurgente
A adaptação econômica só surgiu porque houve uma pressão política, moral e insurgente. No Brasil mesmo, foi essa pressão que fez a diferença, não o contrário. A adaptação econômica foi uma consequência, não sua causa, já que o sistema se tornou ingovernável como resultado da resistência nos quilombos, aumento do movimento abolicionista nas áreas urbanas, pressão internacional pelo fim do tráfico e da escravidão, tensões políticas crescentes, etc. – tudo isso antecedeu a adaptação econômica local. Enfim, um conjunto de fatores atuando simultaneamente, não mero economicismo.
Usar o economicismo em relação à escravidão para justificar o economicismo como motor para a libertação animal é fazer uma apropriação seletiva da história. Considerando também que a indústria animal cresce a cada ano, e novos recordes de “produção” são atingidos, difícil é ver como a crença no economicismo pela libertação animal pode transformar a realidade, se a indústria animal é a própria hegemonia cultural em expansão, não em estagnação e menos ainda em declínio.
Acreditar no contrário é ignorar que se é mais fácil atender muito mais consumidores que refletem o habitus especista, por que alguém que tem exatamente a motivação econômica apostaria em uma contra-hegemonia se seus valores estão alinhados à própria hegemonia? A motivação economicista esbarra nos limites do seu próprio economicismo. Afinal, é extremamente vantajoso e mais seguro (convergente à hegemonia) do ponto de vista econômico investir na exploração animal.
O impacto sistêmico do habitus
O sociólogo Pierre Bourdieu nos mostra que o habitus é um sistema de disposições duráveis, adquiridas pela socialização, que orienta nossas escolhas sem que precisemos pensar racionalmente sobre elas. É o “gosto” que parece natural, mas é socialmente construído. O especismo, nesse quadro, não é uma opinião que se tem, é um habitus e uma hegemonia cultural que se constitui por um senso comum e que é aceito como parte da realidade como é e como deve ser.
A criança que cresce vendo o frango no prato e a galinha viva como “coisas diferentes” não está fazendo uma reflexão filosófica; está internalizando uma estrutura. O “gosto” pela carne não é um cálculo racional de nutrientes ou preço; é uma disposição incorporada, que envolve afeto, memória, identidade e pertencimento. O maior erro do economicismo é se colocar à frente da cultura. Se a resistência é cultural e ultrapassa o econômico – e se foi ela que moveu todas as libertações da história –, por que, na luta pelos animais, há uma insistência de que a disputa deve ser no terreno onde a hegemonia vigente é mais forte?
O erro de subestimar a indústria animal como hegemonia cultural
Seja no livro “How to Create a Vegan World”, de Tobias Leenaert, ou em qualquer defesa que usa a interpretação economicista do fim da escravidão para projetá-la como o meio para o fim da libertação animal, a indústria animal é subestimada como hegemonia cultural. Sua ubiquidade também é subestimada, já que ela está cada vez mais presente.
Afinal, há um uso cada vez mais diversificado do que é de origem animal e também está crescendo até mesmo em países onde sua participação era historicamente mais limitada. Basta olharmos para o que ocorre hoje também na China e na Índia, e também como influência do próprio Ocidente, que dentro da hegemonia cultural especista criou o signo do “aumento do consumo animal como reflexo de desenvolvimento”.
O continente africano hoje também é visto como a “próxima fronteira” para a expansão da pecuária industrial, com investimentos maciços em frigoríficos e granjas para “atender à crescente urbanização”. Portanto, a hegemonia especista está se expandindo para países onde o consumo de alimentos de origem animal é tradicionalmente pequeno.
Esses exemplos operam um colonialismo alimentar em que o Ocidente que se coloca na “vanguarda do veganismo”, e onde se comemora “mudanças marginais e voláteis”, é o mesmo que tem responsabilidade sobre o aumento global do consumo animal – ao explorar culturalmente a relação entre esse consumo e progresso, modernidade, desenvolvimento, status.
Nada disso se desenvolve economicamente sem antes se desenvolver culturalmente. Esses países não concordariam com essa penetração se não houvesse um processo colonialista de incutir em seus contextos que o aumento do consumo animal é o aumento daquilo que representa a maior expressão do bom viver social hoje nas relações de consumo.
Também é reconhecível que muito poderia ser aprendido com culturas onde o consumo animal não é parte da dieta padrão. Em vez disso, o Ocidente decidiu criar o seu padrão de excelência na contramão dessa hegemonia enquanto esse mesmo Ocidente desestabilizou os hábitos que já estavam dentro dessa convergência.
O erro economicista em relação à libertação animal
O que os economicistas fazem é uma projeção etnocêntrica e temporalmente ingênua. Eles olham para a história europeia (a abolição da escravidão) e para o presente ocidental (o crescimento plant-based em determinados nichos urbanos) e projetam uma linha reta para o futuro global. Mas isso ignora que até mesmo o “hype” de produtos plant-based já passou. Não que ele deixará de existir, mas como já problematizei em outros artigos, já enfrenta desafios bem específicos que mostram que seu crescimento reflete mais uma cultura de nicho do que a prometida massificação (já abordei como seu crescimento não ameaça a indústria animal e sim atua dentro da hegemonia especista).
Claro que isso esbarra na indiferença pela cultura ao tentar substituí-la com oferta de produtos. Nisso, identificamos não apenas a subestimação da hegemonia cultural e do habitus como também da importância das mediações culturais: processos complexos pelos quais as pessoas negociam, reinterpretam e incorporam o novo, como sugeridas pelo antropólogo, semiólogo e filósofo Jesús Martín-Barbero.
Entre o que é “oferecido” (pela mídia, pelo mercado, pelo ativismo) e o que é “recebido” (pelo público), existe um campo complexo de mediações; de filtros culturais, reinterpretações, negociações de sentido. Crer que um movimento de oferta em relação ao consumidor pode ocorrer sem que haja um movimento do consumidor em relação a essa oferta é um movimento unilateral que subestima a própria cultura em que o ser humano está inserido e que precisa ser desestabilizada para que ele então se interesse em participar disso como expressão de sua própria mudança.
O economicismo pela libertação animal age como se bastasse oferecer o produto
O economicismo age como se bastasse oferecer o produto (plant-based barato e gostoso) para que ele fosse aceito. Mas entre a oferta e a aceitação existe todo o universo das mediações culturais: a história alimentar da pessoa, sua identidade social, seus rituais familiares, suas redes de pertencimento, seus símbolos. O produto não chega “puro” ao consumidor; ele é filtrado por tudo isso. O economicismo ignora as mediações. Trata o consumidor como uma tábula rasa que responderá mecanicamente ao estímulo certo (preço baixo, sabor similar). Mas o consumidor não é tábula rasa; é um ser cultural, e sua resposta será sempre mediada por quem ele é. A cultura é a matriz de tudo. É ela que define o que é desejável, o que é legítimo, o que é “comida de verdade”. Enquanto essa matriz não mudar, nenhum preço baixo, nenhum produto bem feito, nenhum investimento bilionário fará diferença.
Uso como exemplo as várias vezes em que fui ao supermercado e me deparei com novos produtos à base de vegetais com 50% e até 75% de desconto e mesmo assim sobraram e até venceram. Se a lógica do preço fosse a única barreira, o que explicaria isso? Se veganos têm a sua própria lógica para não consumir produtos de origem animal, há muitos não veganos que também têm a sua própria lógica para não consumir esses novos produtos à base de vegetais (definidos como plant-based ou veganos) se eles podem consumir produtos de origem animal. Ignorar isso é um erro exatamente porque segue a lógica economicista e subestima o habitus, a hegemonia cultural, as mediações – enfim, a disputa no campo da cultura. Uma pessoa para quem um produto não se insere nas “legitimidades de consumo”, que é uma questão cultural, pode rejeitá-lo até mesmo se ele for de graça.
O economicista olha para os países mais ricos da Europa e vê uma leve estagnação no consumo de um ou outro tipo de carne, e que sempre pode ser volátil, e acha que a maré está virando. Mas, ainda que isso realmente seja tratado como positivo, não é mais do que um pedaço minúsculo do planeta. O grosso da humanidade está entrando agora no maior jogo do consumo de carne, e isso, como já apontei, tem sido explorado hegemonicamente como “desenvolvimento”. O fato de o consumo global de carne crescer a cada ano e de já falarmos em até mais de 85 bilhões de animais terrestres mortos por ano para consumo (Faunalytics) já supera qualquer percepção ingenuamente positiva disso.
No Brasil, como publiquei no artigo “O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?”, a carne está chegando a mais lares brasileiros a cada ano – são 93% em 2025, segundo levantamento da Kantar Worldpanel. Isso não significa aceitar a cultura como ela é e desistir de mudá-la. Significa entender que a mudança cultural é o trabalho central. Não se muda isso apostando no economicismo quando as pessoas estão consumindo exatamente o que elas querem consumir.
O economicismo pela libertação animal é dogmático
Há muitas pessoas que confiam no economicismo porque ao atribuir a mudança a fatores materiais (dinheiro, produtividade), o discurso parece “mais realista” e menos “ideológico” do que um discurso baseado em direitos, ética e valores culturais. Isso atrai um perfil de ativista que se sente desconfortável com o que considera “radicalismo” ou que não se sente confortável ou seguro em discutir as motivações do veganismo – então acaba vendo nisso uma suposta via de “não conflito”. A ironia disso é que acreditar no economicismo como o meio que garantirá a libertação animal é uma questão de fé, logo o economicismo é dogmático.
Leenaert e outros pragmáticos economicistas veem a “indústria animal” somente como “indústria”. Portanto, acredita-se na lógica de uma indústria contra outra indústria. Isso ignora que a indústria animal se constitui dentro de um sistema sociocultural e econômico totalizante – e passa a ser expressão dele, porque ela personifica esse sistema na esfera economicista e de uma forma que não é meramente capturada por ele, já que ela o excede.
É exatamente por isso também que a aposta de reação economicista é ingênua. Também é isso que permite que a indústria animal não apenas cresça como se reconfigure, porque ela tem o terreno cultural hegemônico do especismo para explorar, enquanto os economicistas que operam em outra direção acham que podem superar isso com uma ação que soa até equivocada chamar de contra-hegemônica, quando se acredita que tudo é uma questão de cálculo econômico.
Quando Leenaert diz que é mais eficaz abrir uma empresa do que fazer ativismo, isso reflete o ponto mais crítico do dogmatismo economicista que ressoa na abordagem pragmática do veganismo. Sem querer, articula-se uma armadilha que, se aceita dominantemente dentro do veganismo, resultaria em uma grande desmobilização do ativismo de que o veganismo depende para crescer. Afinal, o mercado não forma a consciência crítica que faz alguém ser vegano ou se tornar ativista, ele atende consumidores. Portanto, não define lutas.
A lógica também de que o mundo vegano virá com a redução do consumo de carne e de outros produtos de origem animal, que levará ao aumento dos custos de produção, enfraquecendo a indústria animal, também se mostra equivocada, já que, como apontei antes, o mundo bate recordes de abate de animais. E no Brasil, a realidade é extremamente preocupante, como trago também no artigo “O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?”. Tudo fortalece a conclusão de que enquanto se apostar no economicismo como principal motor de mudança, os recordes favoráveis à indústria animal serão inevitáveis – porque isso é querer buscar vitória disputando um jogo em que quem define as regras é a própria industria animal, que tem a hegemonia cultural especista ao seu lado e em expansão.
Essa lógica defendida por Leenaert e por muitos pragmáticos é adotada porque parece um caminho mais fácil do que esperar que a maioria da população se torne vegana. No entanto, o fato disso ser contestado por recordes globais de abate de animais, chama atenção também para como motivações frágeis podem parecer realizáveis mais na teoria do que na prática, principalmente quando ignoram o lugar da hegemonia cultural especista e sua capacidade de crescimento e ubiquidade. Portanto, criticar isso não é ser “purista” e sim mostrar como o próprio pragmatismo falha em ser pragmático pela fé depositada no dogma economicista – fé no mercado como força quase mística que resolverá tudo; fé na tecnologia como salvadora; fé na “transição natural” que acontecerá sem luta; fé nos números que mostram nichos, ignorando os que mostram totalidades. Até mesmo a redução do consumo de carne depende de mudança cultural.
Aumento global do consumo de carne, poder político e subsídios
Também lembramos que o economicismo ignora que em muitos países onde o consumo de carne já era baixo, além dos que citamos, o movimento hoje vai em outra direção – de aumento. E se há um aumento global, isso mostra que ignorar isso é dar atenção exatamente a alguma estagnação ou diminuição marginal e que ocorre de forma volátil nos países mais ricos em renda per capita. Devemos lembrar também que em relação à carne, isso nunca envolve carnes em um sentido geral e sim específico – algum tipo. Logo, exaltar um suposto decréscimo ou estagnação tende a velar outros tipos em crescimento.
Outro ponto é que a força política não está do lado da indústria animal por acaso, se olhamos para a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que é a maior força do Congresso Nacional. Sua força é dada pela população. E a bancada ruralista leva vantagem porque a agropecuária e os signos construídos em torno dela refletem também o habitus dominante. Subsídios, políticas agrícolas, acordos comerciais envolvendo alimentação, leis de rotulagem – tudo isso hoje passa pelo crivo da mesma bancada que tem a agropecuária como símbolo de sua constituição. Podemos demonizá-la, mas ela não deixa de refletir interesses fortalecidos pela hegemonia cultural que a grande maioria da população endossa com seus hábitos, com sua cultura.
Querer antagonizar isso no campo político institucionalizado sem mudar o que está fora dele é também atacar o sintoma e não a causa. Fazer isso é correr o risco de ter sua luta tratada como “ação de uma minoria tentando reivindicar ou impor algo”. Quando nos queixamos de um projeto de lei que não avança, devemos refletir sobre a conexão que existe entre esse projeto de lei e a mudança cultural de que ele depende para ser apoiado por uma parcela da população em condições de promover transformações reais.
Os economicistas também acreditam que o fator econômico pode atrair até pecuaristas numa outra direção. Esse é outro erro. Por que alguém que está imerso culturalmente na agropecuária, e investindo em algo que lhe dá todo o retorno financeiro que deseja, vai querer mudar de lado? A indústria animal não está em declínio no Brasil. Mesmo quando há crises, o setor, por ter a hegemonia cultural ao seu lado, recorre ao governo, aos subsídios. E não faz isso apenas por um cálculo econômico, mas também pela manutenção da sua própria identidade rural – que é fortalecer os símbolos em relação com o tradicionalizado uso de animais. Se a disputa for meramente economicista, ela não oferece nada e ainda subestima a relação cultural entre aquele que está na base da cadeia exploratória da indústria animal (o pecuarista), e que é exatamente quem tem uma relação mais profunda de identidade com o uso de animais – algo que evoca pertencimento.
Mesmo que o mercado de produtos definidos como plant-based ou veganos receba subsídios eventualmente, ele não tem a hegemonia cultural ao seu lado. Portanto, começará de baixo e sem as garantias de uma hegemonia; o que pode resultar até mesmo em cancelamentos de subsídios se o retorno ficar abaixo do esperado. Não por acaso, os projetos de lei que tramitam no Congresso hoje em relação a isso definem “prazos” para o setor atingir objetivos. A indústria animal nunca é submetida a esse tipo de condicionalidade tão limitante – porque ela, por meio de bancadas, comissões e outros tipos de influência política, tem o poder de definir até mesmo o que deve ou não ser permitido a um novo setor.
Também é ingênuo acreditar que o antagonismo de atores da Frente Parlamentar da Agropecuária a termos como carnes vegetais, leites vegetais, entre outros, tem a ver com o fato de acreditarem que isso faz parte de “um processo de sepultamento da indústria animal”. Não, o que existe é uma disputa no campo semiótico, em que a bancada ruralista tenta exercer o seu poder de rejeitar o compartilhamento dos símbolos que ela julga tradicionalizados pela indústria animal. Ou seja, é uma guerra simbólica, não economicista. Isso mostra como a bancada não subestima a cultura e a entende como um campo de disputa. Nesse ponto, mesmo sem conhecer Martín-Barbero, ela demonstra entender a lógica da teoria das mediações culturais – algo que o próprio economicismo pela libertação animal tende a subestimar e até mesmo ignorar.
O essencialismo como problema do economicismo e a importância do pós-economicismo
O economicismo é também essencialista porque reduz o ser humano a homo economicus (abstração útil para certos modelos econômicos, mas desastrosa como base para pensar mudança social). Também reduz a história ao determinismo econômico (essencialmente movida por forças de mercado), reduz a cultura a epifenômeno (derivada da base econômica – e não o que realmente é, uma estrutura; algo que validamos junto com o filósofo, teórico e linguista Antonio Gramsci) e reduz a mudança social à transição de mercado (resolvida por preços e incentivos). Dessa forma, ele exclui a cultura como força autônoma e determinante; a identidade como motor de ações não econômicas; o simbólico como campo de disputa real; o afeto como base de vínculos e escolhas; a tradição como reprodução de hábitos; a resistência como ato não calculável; e a ética como fundamento de decisões.
O pós-economicismo oferece uma visão não essencialista porque reconhece que o ser humano é complexo (cultural, afetivo, simbólico, ético e econômico); que a história é aberta (determinada por múltiplas forças, não apenas econômicas); que a cultura é estrutural (tão real quanto a economia, e frequentemente mais determinante); e que a mudança social é conquistada não por transição de mercado, mas por luta em múltiplas frentes. O economicismo essencialista é uma prisão teórica.
Ele aprisiona o pensamento em categorias estreitas, impede a compreensão da complexidade do real e leva a estratégias que não funcionam porque foram construídas sobre uma visão empobrecida do ser humano e da sociedade. O pós-economicismo é a libertação dessa prisão. É a abertura para ver o mundo como ele realmente é. É notório que entre os economicistas muitos podem falar em “múltiplas frentes”, mas na prática, o foco dominante é economicista. Isso opera uma contradição que reflete mais uma sinalização simbólica – ao se falar em um diversificado “fazer” que concretamente evoca mais um “pouco fazer” ou mesmo um “não fazer”.
Refletir sobre isso requer mais olhar para o espaço maior onde a mudança não ocorre do que para o espaço menor onde ela ocorre sem possibilidade de não ser mais do que marginal. O pós-economicismo, ao resgatar a centralidade da cultura, não está sendo “idealista”. Está sendo realista e mais realista que o economicismo. Porque está olhando para onde a batalha realmente acontece: no terreno dos símbolos, das mediações, dos significados. Para terminar, e retomando o conflito inicial, outro erro em comparar a abolição da escravidão com o fim da exploração animal é que a dimensão que a segunda atingiu e sua normalização que até hoje é minimamente contestada expõe uma imensa diferença de proporcionalidade envolvendo a participação da população global.
A escala e a ubiquidade da exploração animal não têm paralelo histórico – são mais de 85 bilhões de animais terrestres (Faunalytics) e mais de um trilhão de animais aquáticos (Fish Count) mortos por ano. E podemos ir muito além quando pensamos em outras práticas especistas, que impactam em animais domésticos e em animais silvestres. Ademais, a exploração animal é tão normalizada que sequer é vista como exploração – está em toda parte e é invisibilizada. A escravidão, por mais terrível que fosse, nunca atingiu esse nível de normalização. Ademais, os animais explorados nas nossas relações de consumo não podem se revoltar por si mesmos como os humanos puderam e podem. Portanto, o papel do ser humano como agente moral é ainda mais crucial e inescapável.
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