A ascensão do veganismo no Canadá

No país conhecido pela baixa densidade demográfica há mais de três milhões de pessoas que se identificam como veganas ou vegetarianas

Atualmente há 6,4 milhões de canadenses reduzindo ou cortando o consumo de carne, e são pessoas com potencial de fazer a transição para o veganismo (Foto: BlogTO)

O Canadá é apontado hoje como um dos países mais promissores quando se fala no crescimento do veganismo, considerando que há mais de três milhões de pessoas que se identificam como veganas ou vegetarianas.

Como estamos falando de um país com baixa densidade demográfica, ou seja, população de pouco mais de 37 milhões, é um percentual qualificado como bem significativo, embora com condições de crescer muito mais. Além disso, há 6,4 milhões de canadenses reduzindo ou cortando o consumo de carne, e são pessoas com potencial de fazer a transição para o veganismo.

Mas será que realmente há tantas coisas acontecendo no Canadá que apontam para uma maior aceitação do veganismo ou de pelo menos aumento da rejeição ao consumo de carne? Vamos analisar outros pontos favoráveis ao veganismo no Canadá:

Série aborda expansão do veganismo  

A rede pública de rádio e televisão do Canadá, mais conhecida como CBC, criou recentemente uma série intitulada “Growing Vegan”, que aborda a expansão do veganismo no país, mas principalmente na Colúmbia Britânica, província que conta com o maior número de veganos. Como é produzido conteúdo periódico sobre o tema, isso não seria possível se o veganismo não estivesse cada vez mais em evidência no Canadá.

(Foto: BlogTO)

Governo quer reduzir dependência de produtos de origem animal

Ao contrário de países onde o lobby da indústria agropecuária normalmente inviabiliza o apoio do governo federal às iniciativas que oferecem alternativas para quem não deseja mais consumir produtos de origem animal, o Canadá prefere apostar no futuro e na diversidade – inclusive se projetando pra quem sabe se tornar um dos líderes na produção de alimentos baseados em proteínas de origem vegetal.

Em 2018, o governo canadense criou um programa federal de 150 milhões de dólares destinados às empresas de pequeno e médio porte que investem em produtos baseados em vegetais. O objetivo é reduzir a dependência do país em relação aos alimentos de origem animal. Além disso, esse valor é apenas uma parcela de um fundo de 950 milhões de dólares voltados à inovação no setor de alimentos e manufatura.

(Foto: Getty)

Quase 40% dos jovens da Colúmbia Britânica se identificam como vegetarianos ou veganos

Pesquisa realizada em 2018 pelo professor e cientista canadense Sylvain Charlebois, da Universidade Dalhousie, revelou que quase 40% dos canadenses da Colúmbia Britânica com menos de 35 anos se identificam como vegetarianos ou veganos.

O trabalho de Charlebois, conduzido com o suporte do coletor de dados Qualtrics, contou com entrevistas com 1049 adultos. O pesquisador disse que o resultado foi realmente surpreendente, porque são os números mais altos do país se tratando de vegetarianos e veganos em uma região específica.

O percentual de vegetarianos e veganos na Colúmbia Britânica é três vezes superior à média canadense. Vancouver foi considerada a melhor cidade para veganos no Canadá, com o maior número de estabelecimentos e opções para veganos.

(Foto: Getty)

Canadenses estão consumindo 50% menos carne do que nos anos 1970

De acordo com a Statistics Canada, o departamento do governo federal canadense encarregado de produzir estatísticas sobre a população, os canadenses estão consumindo menos carne, menos leite, menos refrigerantes e menos carboidratos à base de farinha.

Atualmente os canadenses consomem 50% menos carne do que nos anos 1970, e a previsão é de que o consumo deve cair ainda mais. Segundo publicação da CBC e dados da Statistics Canada, havia mais de 70 litros de leite integral disponível para cada canadense em 1960. Hoje, não há mais do que dez litros. Não é um problema relacionado à concentração de gordura, até porque o leite desnatado também está em queda. São mudanças nos hábitos dos consumidores.

(Foto: Getty)

72% dos eleitores de Quebec defendem que o bem-estar animal deve ser uma prioridade política

De acordo com uma pesquisa encomendada pela Sociedade para a Prevenção da Crueldade Contra os Animais (SPCA) de Montreal e concluída em 2018, 72% dos eleitores da província de Quebec defendem que o bem-estar animal deve ser uma prioridade política. Em 2015, o Código Civil da província de Quebec deixou de considerar os animais como propriedades pessoais para reconhecê-los como criaturas sencientes.

(Foto: Pierre Rochon/Alamy)

Governo qualifica oficialmente a “dieta vegana” como saudável

Na última atualização do Guia Alimentar do Canadá, desenvolvido por médicos nutrólogos e nutricionistas, o governo canadense qualifica oficialmente a “dieta vegana” ou “vegetariana estrita”, em referência a uma dieta sem alimentos ou ingredientes de origem animal, como saudável. Além disso, destaca a importância do consumo de vegetais e encoraja a drástica redução do consumo de alimentos de origem animal.

No tópico de recomendações e considerações, o governo também enfatiza que é importante manter uma ingestão regular de vegetais, frutas, cereais integrais e alimentos ricos em proteínas, especialmente fontes vegetais de proteínas.

Embora o guia contemple diversos tipos de dietas, em vários pontos é feita uma observação sobre a importância da redução do consumo de alimentos de origem animal. “Uma mudança em direção ao consumo de mais alimentos baseados em vegetais pode ajudar os canadenses”, sugere.

O guia alimentar também recomenda a substituição de laticínios ricos em gorduras ruins por alimentos ricos em gorduras boas como oleaginosas, sementes e abacate. O governo canadense anunciou que o guia é atualizado de acordo com as necessidades da população.

(Foto: Getty)

Universidade recebe US$ 1 milhão para investir em alternativas aos testes em animais

 A Universidade de Windsor, em Ontário, recebeu em 2018 um milhão de dólares para investir em alternativas aos testes em animais. A doação foi feita pela Eric S. Margolis Family Foundation.

O valor doado foi destinado à criação de um novo laboratório de pesquisa e treinamento, além do desenvolvimento de um programa acadêmico voltado à ciência da substituição animal.

(Foto: Getty)

Canadenses exigem opções veganas em instituições públicas

Cidadãos canadenses se juntaram e criaram em 2018 o grupo de lobby Vegan Option Canada (VOC), que tem como objetivo primordial alterar leis para garantir que instituições públicas como hospitais, escolas e centros de idosos ofereçam opções de refeições veganas.

“Nossa missão é conscientizar para o fato de que o acesso a refeições veganas é um direito humano. Quando estamos em uma instituição pública – particularmente quando é obrigatório e não uma questão de opção – nossas escolhas alimentares pessoais precisam ser respeitadas, especialmente quando elas são baseadas em uma escolha ética”, destaca Sorin Ionescu, representante de relações públicas do VOC.

(Foto: Getty)

Rede de fast food vegana quer abrir 230 filiais até o final de 2020

A rede de fast food vegana Copper Branch, do Canadá, que quer abrir 230 filiais até o final de 2020. Por enquanto, as prioridades são Canadá, Estados Unidos e França, países que tem experimentando um crescimento bastante significativo do veganismo.

Hoje a cadeia de restaurantes que até o ano passado contava com 40 unidades já tem um projeto em andamento para alcançar a meta antes de 2021. O Copper Branch oferece café da manhã, almoço e jantar.

Diferente das redes de fast food mais tradicionais, o Copper Branch destaca que tem uma preocupação em oferecer comida de qualidade, que não é baseada em calorias vazias ou rica em gorduras ruins.

Além de pratos completos, há opções como veggie burgers, sanduíches, wraps, saladas, sopas, aperitivos, sobremesas e smoothies. A rede também é conhecida por doar parte de seus lucros para organizações que atuam em defesa dos animais e do meio ambiente.

(Foto: Copper Branch/Divulgação)

Açougues tradicionais comercializam “carnes vegetais”

Mais um fato que indica que a demanda por proteínas de origem vegetal está crescendo no Canadá é que os açougues canadenses estão comercializando “carnes vegetais” – e não se trata de açougues veganos ou vegetarianos, mas de açougues convencionais mesmo.

Em vez de declarar guerra ao veganismo, como tem acontecido em algumas regiões do Reino Unido e da França, onde já ocorreram conflitos entre veganos e açougueiros, há quem prefira se adaptar a uma nova realidade. Exemplo disso é a Meridian Meats & Seafoods, que tem compartilhado em sua conta no Instagram as suas opções de “carnes vegetais” disponíveis em todos os seus açougues.

6,4 milhões estão reduzindo ou eliminando o consumo de carne

Uma pesquisa concluída pela Universidade de Dalhousie com o apoio da Universidade de Guelph revela que 6,4 milhões de canadenses estão reduzindo ou eliminando o consumo de carne.

A última atualização do Guia Alimentar do Canadá, que incentiva mais o consumo de alimentos à base de vegetais e qualifica uma dieta vegana ou vegetariana estrita como saudável tem contribuído para uma mudança de consciência dos consumidores.

Segundo a pesquisa, os entrevistados mais jovens e mais instruídos têm “menos apego à carne” e são mais propensos a preferirem alternativas baseadas em plantas. Cerca de 63% entrevistados que são veganos têm menos de 38 anos. Os consumidores mais jovens também são menos propensos a acreditarem que comer carne é um direito fundamental.

(Foto: Mikaela MacKenzie / Winnipeg Free Press)

Governo investe em fabricante de produtos veganos

O governo canadense está direcionando investimentos para pequenos fabricantes de produtos veganos. Uma das mais recentes empresas a receber recursos do governo foi a Good Food for Good, por meio do Ministério de Pequenos Negócios e Promoção da Exportação.

O dinheiro arrecadado pela empresa, que não utiliza em seus produtos organismos geneticamente modificados (OGM), açúcar refinado, conservantes, glúten, soja ou milho, está sendo utilizado para expandir sua presença no mercado norte-americano.

A iniciativa do governo canadense em apostar em pequenos negócios faz parte de um programa chamado AgroMarketing, da Canadian Agricultural Partnership, que pretende investir três bilhões de dólares nos próximos cinco anos em pequenos empreendedores que estão desenvolvendo produtos alimentícios classificados como de alta qualidade.

(Foto: Divulgação/Good Food for Good)

Para 70% da população de 18 a 34 anos, alternativas à carne vieram para ficar

De acordo com recente pesquisa realizada pelo Instituto Angus Reid, os produtos à base de plantas têm se popularizado no Canadá principalmente em algumas faixas etárias. Para 70% dos residentes com 18 a 34 anos, as alternativas à carne não são uma tendência passageira, e vieram para ficar.

Nessa faixa etária, 58% já consumiram ou consomem alternativas à carne. O Instituto Angus Reid aponta que jovens consumidores da área urbana têm procurado cada vez mais proteínas à base de plantas. Mesmo entre aqueles que ainda não consomem esses produtos, a popularidade também é evidente.

Segundo a pesquisa, 95% da população já conhece as alternativas à carne, mesmo que nem todos tenham experimentado. “Se essa tendência realmente tem poder de sustentação, o crescimento das alternativas baseadas em plantas prejudicará a indústria de carne do Canadá? Os canadenses são mais otimistas do que pessimistas sobre o que esse fenômeno significará para o país”, enfatiza o relatório.

(Foto/Acervo: Toronto Star)

Há mais de três milhões de vegetarianos e veganos no Canadá

De acordo com uma pesquisa divulgada pela Universidade Dalhousie, em Halifax, há mais de três milhões de vegetarianos e veganos no Canadá. A emergência do vegetarianismo e do veganismo tem feito a indústria e o comércio repensarem novas abordagens e novas ofertas de alimentos e produtos.

No Canadá, 2,3 milhões de pessoas se identificam como vegetarianas e 850 mil como veganas, e tanto vegetarianos quanto veganos acabam muitas vezes consumindo alimentos e produtos de um mercado análogo. Esses números representam 10% da população canadense, e a estimativa é de que o crescimento seja cada vez maior ano a ano.

(Foto: Montreal Vegan Festival)

Empresas se juntam e criam organização para fortalecer o segmento

Empresas de produtos vegetarianos e veganos do Canadá tomaram uma atitude para fortalecer o segmento de produtos livres de ingredientes de origem animal – se juntaram e criaram a Plant-Based Foods of Canada (PBFA), que é uma organização que prevê a consolidação e o apoio aos interesses regulamentares e de mercado dessas empresas.

Além disso, é uma forma de não se deixar intimidar pelo lobby da indústria agropecuária. Atualmente, todas as empresas que compõem a PBFA estão avaliadas em um valor total de três bilhões de dólares.

(Acervo: Alamy)

Cliente pode ganhar até 500 dólares para consumir comida vegana

O restaurante Dundas Eat + Drink, em Vancouver, é conhecido pelo desafio “Vegan Bun Bo Hue”, que dá aos clientes a oportunidade de ganharem até 500 dólares para consumirem comida vegana.

A princípio, o participante deve comer em no máximo 20 minutos uma tigela de 1,36 quilo de uma sopa à base de tofu, “carne vegetal”, macarrão e um caldo acre e levemente picante. Os cinco clientes mais rápidos ganham um cartão-presente de 100 dólares e a oportunidade de disputarem um prêmio de 500 dólares.

(Foto: Divulgação)

Fresh, rede de restaurantes, se torna vegana

A rede de restaurantes Fresh, sediada em Toronto, se tornou vegana em junho. Embora já oferecesse inúmeras opções para veganos, a rede ainda comercializava algumas bebidas e alimentos com laticínios. As mais novas unidades da Fresh já foram abertas exclusivamente com menu vegano e pratos que incluem anéis de cebola com quinoa, bebidas e alimentos crudívoros e smoothies verdes.

(Foto: Divulgação)

Prefeito cria Semana da Consciência Vegana

O prefeito de Kelowna, na Colúmbia Britânica, Colin Basran, criou em maio deste ano a Semana da Consciência Vegana na cidade, a pedido dos coordenadores do Kelowna VegFest. A iniciativa, que inclui a realização de festival vegano e outras atividades, é uma forma de aproximar mais as pessoas da realidade do veganismo.

Além de mostrar como o veganismo é possível, a semana é marcada pela oferta de palestras sobre como se tornar um empreendedor vegano, nutrição vegana no esporte e jornada rumo ao desperdício zero.

(Foto: Kelowna Vegan Festival/Divulgação)

Empresa apoia pequenos empreendimentos veganos

Uma empresa de crédito foi criada este ano no Canadá com o objetivo de apoiar pequenos empreendimentos veganos. Com sede em Montreal, a Vegan Capital desempenha o trabalho de oferecer crédito financeiro e ligar empreendedores a investidores.

A iniciativa é dos especialistas no mercado vegano François Burra e Juliet Hivon, que são veganos e atendem somente empresas que ofereçam serviços e produtos livres de ingredientes de origem animal e que também não sejam testados em animais.

Com a iniciativa, Burra e Hivon esperam ajudar a ampliar o surgimento de mais iniciativas veganas no mercado canadense, já que ainda hoje, mesmo com o crescimento da demanda por serviços e produtos veganos, muitas pessoas encontram dificuldades em investir nesse mercado.

A Vegan Capital começou a oferecer as primeiras linhas de crédito em março deste ano e outro ponto positivo da iniciativa é que a empresa prioriza pessoas que estão excluídas das linhas de crédito do sistema bancário convencional. Além disso, todo o trabalho é direcionado para quem ganha no máximo 29 mil dólares canadenses por ano.

(Foto: Vegan Capital/Divulgação)

Canadá tem festival de cinema vegano

O Canadá também conta com o seu próprio festival de cinema vegano – Ottawa International Vegan Film Festival, realizado anualmente e que recebe obras que podem ser inscritas nas categorias “defesa dos animais”, “estilo de vida”, “saúde e nutrição” e “proteção ambiental”.

Em 2018, o grande vencedor foi o premiado documentário “73 Cows”, de Alex Lockwood, que narra a história de um pecuarista britânico que decide deixar o ramo de laticínios, investir na produção orgânica de vegetais e se tornar vegetariano. Já este ano, o maior destaque foi “Bucking Tradition”, de Sharon M. Boeckle, que aborda a crueldade dos rodeios.

(Foto: OIVFF/Divulgação)

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