Apetite por carne cobra um preço ambiental alto no Brasil

Em um recente relatório, a ONG Repórter Brasil destaca como o apetite global por carne, incluindo sua relação direta com a produção de grãos, cobra um preço ambiental alto no Brasil. No país, a pecuária bovina na Amazônia e as lavouras de soja e milho no Cerrado, cultivadas principalmente para servir de base para a alimentação de frangos, porcos e outros animais, estão entre os principais vetores do desmatamento e colocam em risco
ecossistemas singulares.

Ou seja, engana-se quem pensa no assunto, mas limita-se a uma consideração envolvendo somente o bioma amazônico. “O desmatamento de florestas e do Cerrado impacta diretamente a fauna desses locais, que sequer foi completamente catalogada. A cada dois dias, uma nova espécie animal ou vegetal é descoberta na área da bacia amazônica, uma das regiões mais biodiversas do mundo, que abrange territórios de oito países”, alerta o relatório “Floresta Racionada”.

“Já são conhecidas quase duas mil espécies de peixes, 60 de répteis, 35 diferentes tipos de mamíferos e cerca de 1,8 mil espécies de aves na Amazônia. O avanço de atividades produtivas sobre a floresta faz com que muitas dessas espécies sejam conhecidas já na condição de vulneráveis.

Um exemplo é o Titi de Milton (Plecturocebus Miltoni), um primata descrito pela primeira vez em 2014. A espécie, conforme o relatório, só existe no interflúvio dos rios Roosevelt e Aripuanã, entre os estados do Mato Grosso e Amazonas, região pressionada por queimadas e desmatamento. A destruição coloca o animal em risco de extinção, já que ele vive exclusivamente nas copas das árvores.

Embora o consumo de carne no Brasil seja menor do que nas nações mais ricas, país é um dos que mais contribui para o crescimento do consumo mundial, já que lidera as exportações de soja (respondendo por um terço da produção mundial, segundo a Embrapa) e de carne bovina e de frango. Além disso, está previsto que até 2030 o consumo de carne pode aumentar 12% na América Latina, conforme dados de outro relatório – “Os impactos ocultos da pecuária industrial intensiva”, da ONG Proteção Animal Mundial.

O relatório “Floresta Racionada” enfatiza ainda as consequências da alta demanda por proteína animal também em relação à intensificação de práticas de produção intensiva – como o fato de que hoje mais de 70% dos 80 bilhões de animais terrestres criados no contexto da pecuária são mantidos em sistema de criação industrial, o que também significa confinamento – e para esses animais é direcionada uma imensa quantidade da produção global de grãos.

“Além do tratamento cruel, os sistemas de confinamento estão relacionados a uma enorme pegada ecológica em sua cadeia produtiva”, enfatiza a publicação.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a produção e o processamento de grãos para ração, bem como o seu transporte, foram responsáveis por 31% de todas as emissões de gases de efeito estufa associados à agropecuária em 2021.

“Os desmatamentos da Amazônia e do Cerrado são os principais fatores de emissões de CO2 pelo Brasil. Em 2020, enquanto o mundo reduzia sua pegada de carbono em razão da baixa atividade econômica provocada pela pandemia de covid, as chamadas ‘mudanças de uso da terra’, que são a conversão de floresta e Cerrado em pasto ou lavoura, elevaram
em 24% o volume de gases de efeito estufa lançados na atmosfera pelo Brasil em relação ao ano anterior”, aponta o relatório da Repórter Brasil.

Já dados da Our World in Data, estimam que desde 1980 o volume de soja cultivado no Brasil, motivado pela alta demanda agropecuária, aumentou em 680%.

Vale lembrar que no Cerrado, a savana mais biodiversa do planeta e com alta proporção de
espécies que só ocorrem na região, o desmatamento já consumiu quase 50% da vegetação nativa, conforme dados do “Manifesto do Cerrado”, publicado pela ONG WWF-Brasil.

A Repórter Brasil alerta que a ciência demonstrou que as mudanças climáticas tornaram o Cerrado mais quente e seco. Esse desequilíbrio prejudica a sobrevivência de espécies nativas, tanto animais como vegetais, principalmente devido à redução das chuvas e ao aumento do período de estiagem. Por dependerem da água do orvalho e da chuva para sua sobrevivência, as abelhas costumam ser uma das principais afetadas por esse processo – problema que vem com um alerta extra, já que 50% das espécies locais só ocorrem ali, o que é confirmado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Jornalista (MTB: 10612/PR), especialista em jornalismo cultural, histórico e literário e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

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