Categorias: Opinião

Sobre a cliente que ficou horrorizada ao encontrar a cabeça de um frango em um pedido de frango

No Reino Unido, uma mulher ficou horrorizada ao encontrar uma cabeça de frango empanada no meio de asas de frango da KFC. Ela ficou incomodada por ter recebido algo que não pediu, mas o choque tem relação também com o confronto com a realidade.

Afinal, a cabeça empanada não permitiu que a consumidora ignorasse que o frango a ser comido é o frango como animal e não somente como produto, oferecido normalmente em forma e pedaços que não levam a pensar no que precede essa oferta.

A cabeça faz pensar no corpo, na vida, no olhar, no estar do animal que já não vive. Estar diante da cabeça gerou incômodo em relação às partes que ela costuma comer, e que dividiam o mesmo espaço com aquela parte que é descartada mesmo quando frangos são vendidos inteiros. É o desejo comum por não confrontar o que em relação à vida e à ação de subtraí-la é inevitável.

Enfim, consumidores preferem evitar tudo que afeta a desconexão entre carne e animal. Não querem ser perturbados com a realidade que envolve uma disponibilidade que não é possível sem violência e morte.

As asas de frango, mesmo na afirmação óbvia de que são provenientes do frango, não deixam de ser pensadas de forma abstrata, porque o costume leva ao apagamento do frango. Ou talvez sequer já tenha havido para muitos um processo que levasse a um apagamento, se nem mesmo houve um precedente reconhecimento.

Podemos lembrar também de caso semelhante que ocorreu no Brasil há alguns anos, quando uma mulher também ficou horrorizada ao encontrar um mamilo em um pedaço de bacon. Claro que o mamilo está próximo do bacon, já que o bacon é a gordura subcutânea do porco.

Tanto em um caso quanto no outro o choque reforça o apagamento do animal. É estranho e absurdo porque o choque é expressão não apenas da surpresa em confrontar o que sobre um animal não pode ser negado, mas também uma ratificação de que o consumidor não quer ter contato com o animal, com sua afirmação de não ser, porém de ter sido.

Afinal, ter esse contato é reconhecer que o contato existe na “normalidade” com base numa relação com o que sobre o outro é somente morte.

Leia também “Frangos não são vistos como vítimas de acidente“, “Qual é a reação ao encontrar frangos ensanguentados na rua?“, “Quem se importa com o sofrimento dos frangos?” e “Por que frangos são tão ignorados pela consciência humana?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • "Não querem ser perturbados com a realidade que envolve uma disponibilidade que não é possível sem violência e morte."

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