É comum o uso de termos para nos distinguir de outros animais, mas nessa distinção não há um exercício em que a experiência ou o que é parte do ser não humano é referenciado de forma a ser inferiorizada?
Na infância, vez ou outra, eu ouvia alguma criança se referindo ao rosto de alguém como cara e outra pessoa, adulta, replicando: “Quem tem cara é boi ou cavalo.” Há uma reprovação e observação de viés pejorativo, porque evoca uma ideia de que outro animal não pode ter ou ser o que tenho ou sou, porque não podemos nem devemos aproximar as considerações, mesmo quando há compartilhamento comum de partes que nos constituem como viventes.
Ou seja, logo cedo somos apresentados a exemplos em que pensamos outros animais como criaturas que não podem ser referenciadas com as mesmas palavras que utilizamos em relação a nós, embora a experiência seja análoga. Isso surge pelo exercício automático de atribuir-lhes diferenças para perpetuar uma ideia de separação entre nós e eles – uma separação que permita pensá-los como animais a serem usados e a serem definidos de acordo com nossos interesses.
Os termos são fortalecidos pelo contexto em que estão, e os reproduzimos também por hábito. Por exemplo, se alguém diz que uma vaca está grávida e não prenhe, essa pessoa será criticada por atribuir um “termo de referenciação humana” a um animal não humano. Então é dito que isso é “humanizar” o animal.
Por ser não humano, não pode-se dizer que está “grávida”, mas que está “prenhe”, como se a experiência não humana de reproduzir vida fosse uma experiência a ser menorizada, de algo que pode ser pensado como vida à medida de outra importância, que normalmente é utilitária. Mas o que é a experiência para o outro animal, numa dimensão de importância, se pensada para ele, não para nós?
Usar termos diferentes quando não é incoerente usar os mesmos em relação à experiência não humana é uma forma de evitar olhar para o animal como sendo sujeito de experiência equivalente à nossa. O ponto sobre essa questão não é antropomorfizar os não humanos, mas apontar que no uso de palavras há jogos constantes de perpetuação de hierarquias que levam à menor ou maior consideração.
Leia também “Por que usar o termo ‘gado’ de forma pejorativa?“, “É estranho o uso do termo ‘cabeça de gado‘”, “Sobre o termo ‘colheita’ usado para ‘suavizar’ a barbárie da caça” e “Por que usamos o termo ‘humano’como bom e ‘animal’ como mau?“
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Muito válida a reflexão. Certamente não gostamos de nos parecer em nada com os animais não humanos, isso facilita a exploração.