Como cortar subsídios à pecuária em um país onde a maioria come carne?

Uma reflexão sobre um grande desafio que agrava os impactos da produção e consumo de carne

Podemos dizer que o governo federal não deveria ter isentado a carne de impostos e também deveria cortar subsídios à agropecuária e à indústria da carne. Mas em um país onde a maioria dos consumidores come carne (que também são a maioria dos eleitores), como esse corte, que geraria um aumento do preço da carne, seria recebido pela maioria da população?

Sem dúvida, essa realidade seria instrumentalizada por pecuaristas, pela indústria e pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), porque são a alíquota zero e os subsídios que não apenas reduzem custos e garantem ampliação da produção e circulação como aumentam a renda de pecuaristas e ampliam o acesso a novos mercados.

Mas não é nisso que os políticos, pecuaristas e a indústria se focam e sim na “falta da carne na mesa do brasileiro”, porque eles jamais concentrariam as justificativas em seus próprios interesses. Eles instrumentalizam o interesse do consumidor dentro de um interesse muito maior.

Parlamentares ligados à agropecuária não aceitam políticos que antagonizem seus interesses. E eles levam vantagem, porque compõem a maior bancada do Congresso. Portanto, têm condições não apenas de retaliar qualquer governo, já que representam interesses econômicos dominantes, como de usar o exemplo da carne para mobilizar a população contra o governo.

É ingenuidade acreditar que um governo federal pode transformar a realidade se quiser, quando há mais de 300 deputados, além de senadores, de olho em tudo que é visto como prejudicial à agropecuária e a indústria que depende dela. E o que favorece essa bancada é que hoje a população ainda vê a carne como essencial. Logo, eles podem usar isso a seu favor, e com o apoio da mídia (que não vai se voltar contra seus grandes anunciantes), para a construção de narrativas que sempre ocultam o impacto real da carne.

Por muitos anos, nas décadas passadas, o governo custeou quase 10% do preço do quilo da carne – algo mantido por vários governos e que expõe o poder da FPA. Presidentes podem mudar, podem ser favoráveis ou não à bancada ruralista, mas enquanto a FPA seguir dominante, o que mudará?

A FPA age de forma capciosa quando tenta manter o discurso da continuidade em um mundo onde se aponta cada vez mais como consumir carne é algo problemático e prejudicial em vários aspectos. Mas o predomínio de um sistema alimentar que supervaloriza proteínas animais se dá por meio da cultura, da educação, do senso comum.

É preciso construir um novo senso comum. É preciso descontruir mitos, ocupar mais espaços e ampliar a visibilização de alternativas – melhores alternativas. Por outro lado, não há como não apontar que produtos veganos caros não ajudam a mudar essa realidade (como já discuti no artigo “Foco em produtos é ‘um tiro no pé’ do movimento vegano“) – o que torna mais necessário repensar para ampliar a consideração do maior número possível de consumidores, escapando ao consumo como “nicho”.

Claro que o consumo de carne não surgiu com o poder econômico que hoje exige sua manutenção e busca sua ampliação, mas é esse poder econômico que garante, com o apoio da mídia, a continuidade e ampliação desse consumo com base em uma falsa essencialização dos produtos de origem animal.

E mesmo hoje, por exemplo, a mídia tradicional pouco fala em impacto ambiental da pecuária em relação com a carne – insiste em combustíveis fósseis, porque é mais abstrato. E, claro, pelo motivo que já citei – a grande mídia não vai produzir matérias que podem afetar a receita de seus grandes patrocinadores.

O consumo de carne é para políticos ligados à agropecuária um projeto de manutenção de poder. Basta imaginar o esvaziamento que haveria desse poder com uma grande mudança de consumo. Mesmo com as oscilações nas cadeias produtivas, esse sistema já não consegue se sustentar sem apoio do governo. Imagine se isso fosse abalado estruturalmente.

Enquanto a produção de carne receber subsídios e porque a grande maioria da população continua consumindo carne, temos o problema de não ter como evitar que o governo continue apoiando esse sistema – porque ele precisaria se voltar contra os interesses da maioria da população. E o dilema está exatamente no fato de que é o governo que garante a redução do preço da carne com esses subsídios – o que vira um ciclo interminável, porque ao adotar estratégias para combater a alta do preço da carne, as pessoas consomem mais carne. Portanto, isso agrava todos os impactos decorrentes dessa produção e consumo.

O que também não pode ser ignorado é que muitas pessoas no Brasil ainda desconhecem o impacto ambiental da carne, que também afeta a qualidade de vida humana. Mas isso precisa ser abordado de uma forma que favoreça uma consideração que não ocorre quando as pessoas pensam o impacto ambiental como se fosse algo mais abstrato, distante delas e de qualquer mudança que elas possam colocar em prática.

E como a maioria ainda vê a realidade dessa forma, isso é um trunfo para políticos ligados à agropecuária. Hoje também temos mais acesso a pesquisas que apontam que há crescentes custos de saúde decorrentes do alto consumo de produtos de origem animal, o que também sobrecarrega o sistema de saúde.

Qualquer tentativa de um governo de fazer algo que ameace interesses econômicos que envolvem a exploração animal, sempre haverá forte resistência enquanto os eleitores continuarem elegendo parlamentares que estão lá para garantir a manutenção desse tipo de exploração. E se esses políticos refletem um interesse que não é visto pelos eleitores como incômodo, então não há outro caminho que não seja o de recorrer à pluralidade argumentativa para mostrar o quanto essa visão é equivocada e precisa mudar.

Dar poder a quem defende o consumo de animais, e claro que isso ocorre também porque quem os elege também consome animais, expõe a importância de motivar uma mudança de hábitos que levará também a mudanças no voto. Assim, nenhum governo enfrentará problemas para agir de outra forma, ao reconhecer que houve uma mudança que seja o suficiente para que torne injustificável subsidiar o consumo de animais.

Afinal, na lógica da política institucional, um alto interesse de consumo justifica subsídios. Já com uma importante redução da demanda, a carne torna-se algo a ser superado. Hoje, se houver um trabalho amplo de conscientização sobre o impacto da carne, e se for cada vez mais compreendido pela população, isso também favorece a redução da resistência à carne como um problema que não pode ser pensado mais como uma “questão de acesso”.

Também não podemos deixar de denunciar tudo que políticos fazem que externe uma relação entre consumo de carne e uma série de problemas que devem ser considerados pelos consumidores. Afinal, se são ações extremamente prejudiciais, e que não justificam o suposto e discutível “benefício”, podemos tentar aproximar o maior número possível de pessoas de uma reflexão que ainda pode ser totalmente desconhecida para elas.

Alguns pontos

Podemos falar em impacto ambiental e reconhecê-lo, mas enquanto sua relação com o consumo de carne não for tratada como de igual importância por um percentual bem significativo da população, não haverá resultados. Todos os argumentos que levam a mudanças que se convertem em resultados reais dependem de impactar em um grande número de pessoas. Do contrário, haverá somente nós valorizando o que não é valorizado pelos outros e nos aproximando de uma realidade de maior gravidade.

É preciso também mostrar que o subsídio à carne não é somente sobre favorecer o acesso à carne, mas também uma maior concentração de renda nas mãos de quem atua nesse meio e contando com benefícios que a maioria da população não tem e nunca terá. Então a oposição a esse consumo também tem esse viés social. É importante que a população entenda que o segmento que se beneficia disso não está do seu lado, mas do lado deles mesmos, além de agravar desmatamento, emissões de carbono, degradação do solo e contaminação do solo, como já apontado várias vezes também pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Subsídios à pecuária e à indústria da carne são custeados com o nosso próprio dinheiro, por meio dos impostos que pagamos. Então não existe tal coisa como “sair mais barato”. Ao pensar em “mais barato”, também é preciso considerar todos os outros custos que não são contabilizados – para os animais, impacto ambiental (que afeta também a saúde humana – temperaturas mais extremas, mais estiagens, que levam também ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares, assim como à redução da capacidade de trabalhar (trabalhabilidade reduzida no termo mais formal). Isso também nos coloca em mais condições de riscos de adversidades climáticas, como o agravamento de chuvas e enchentes), além do aumento de poder econômico que leva a uma maior influência política que dificulta combater esses problemas.

Enfim, se não explicamos para as pessoas por que esses subsídios são um problema (já que intensificam também todos os impactos que já ocorrem), elas jamais apoiarão isso. Portanto, é necessário motivar uma nova consciência na contramão da supervalorização do consumo de carne por todos os fatores que hoje ainda parecem estranhos a tantas pessoas.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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