Para pessoas que estão preocupadas com a própria sobrevivência, discursos ambientais podem soar distantes, como se fossem sobre “problemas de quem tem tempo para pensar neles”. Mesmo que a gravidade seja inegável, isso ocorre porque o discurso ambientalista padrão, que é globalizado, ainda é abstrato. Ele não ressoa, por exemplo, com a maioria dos brasileiros.
Isso é promovido de uma forma que faz com que eles acreditem que isso é algo que deve ser resolvido pelas “autoridades”, e porque a própria abordagem ambiental favorece isso. Basta olharmos para o que representam as conferências da ONU, que ainda ocorrem sem apelo popular e sem grandes resultados efetivos. E as autoridades políticas sequer se preocupam em tornar essa questão algo que deva ser pensado junto com a população.
Quando as pessoas crescem em um meio onde não há educação ambiental ou conscientização ambiental, e nunca tiveram estímulo para refletir sobre isso a partir de exemplos que explorem a proximidade, isso torna ainda mais difícil a identificação com o tema ou o interesse pelo tema. Por isso, o “normal” ainda hoje é “deixar que as coisas aconteçam” e só “esperar que as autoridades resolvam isso”.
Muitas pessoas ainda não sabem que impactos ambientais podem afetar também seus modos de vida, sua rotina e sua própria disposição. Há um estudo publicado pelo climatologista Carlos Nobre que relaciona o impacto da crise climática com a redução da capacidade de trabalhar.
Farmácias nunca venderam tantos medicamentos para problemas alérgicos e respiratórios associados à baixa umidade do ar, que é um problema cada vez mais relacionado aos impactos ambientais. E o que dizer de grandes variações de temperatura em um mesmo dia e em tantas localidades onde isso não ocorria?
Mostrar para as pessoas como isso impacta diretamente em suas vidas é uma forma de combater a abstração na questão ambiental e tentar envolvê-las na participação da busca de soluções a partir do seu próprio viver diário.
Ainda que não seja o ideal, porque é uma abordagem antropocêntrica (centrada no ser humano), é uma forma de favorecer um engajamento inicial que pode levar futuramente a uma abertura para se pensar essa questão também fora da abordagem antropocêntrica. Afinal, o equilíbrio ambiental precisa ser pensado também em relação com o combate ao especismo, como um direito não humano – de outros animais.
Crise climática também resulta em estiagens, inundações e, consequentemente, alimentos mais caros. Não podemos ignorar também que a pecuária tem sido cada vez mais apontada como um dos agravantes, considerando o seu impacto ambiental em relação ao desmatamento, degradação do solo e emissões de carbono também a partir tanto do uso do solo (pastagens e soja) quanto das emissões resultantes do próprio viver imposto aos animais no contexto da pecuária – como é o caso do metano, que para o aquecimento global é 84 vezes mais potente do que o dióxido de carbono, segundo levantamento da Comissão Europeia.
Logo, podemos favorecer essa realidade que nos prejudica dependendo do que consumimos. Afinal, se a pecuária desempenha importante papel nessa realidade, como a própria ONU já admitiu várias vezes em seus estudos e levantamentos, consumir produtos de origem animal é participar do problema.
Esse é um exemplo que serve para pensarmos como podemos participar das soluções por meio de nossas escolhas de consumo. Isso, em si, já tem um impacto simbólico que não pode ser ignorado.
Vale lembrar também que o governo brasileiro admitiu em 2023, por meio do PL 1/2023, que visava instituir a Política Nacional de Longo Prazo, o impacto gerado pela agropecuária.
Observações
Conferências da ONU, relatórios complexos e metas para 2050 soam distantes para alguém preocupado em colocar comida na mesa hoje. Isso cria uma terceirização do problema: “É algo para os líderes mundiais resolverem.”
A chave para o engajamento (do abstrato ao concreto)
O antropocentrismo como estratégia (e sua limitação)
Usar argumentos centrados no ser humano (antropocêntricos) não é o ideal, mas é uma estratégia pragmática para iniciar o engajamento. A ideia de que “preservar a natureza é garantir nossa própria sobrevivência e bem-estar” ressoa de forma mais imediata do que falar em ética biocêntrica (valor intrínseco da natureza). No entanto o engajamento inicial pode abrir caminho para uma compreensão mais ampla e ética.
O Caso da pecuária
É necessária uma nova narrativa:
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