Categorias: Opinião

Bancada ruralista ser contra Lula é um bom sinal

A grande mídia brasileira tem apontado que a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), também conhecida como bancada ruralista, já não vendo viabilidade em Jair Bolsonaro para concorrer à presidência em 2026, se articula a favor de Tarcísio de Freitas. Ou seja, Lula é o nome que a bancada ruralista não apoiará. Isso mostra que os nomes escolhidos pela FPA são aqueles que melhor correspondem aos interesses da dominante agropecuária.

Isso quer dizer que Lula, mesmo tendo de lidar com a pressão do setor, não faz tudo que é exigido por ele, ainda que não possa também antagonizá-lo, já que a bancada ruralista tem grande poder no Congresso Nacional – tanto na Câmara quanto no Senado. Não é sobre romantizar o atual governo, mas reconhecer que qualquer governo alinhado à FPA, que coloca o lucro acima de tudo, é pior – e sabemos o que isso significa também para o meio ambiente e para os animais.

Flexibilização ambiental que facilite ainda mais desmatamento, maior favorecimento da exportação de gado vivo e aumento dos subsídios – nosso dinheiro arrecadado por meio de impostos sendo ainda mais destinado para financiar ruralistas e a indústria – para intensificação do abate de animais e do comércio e exportação de carne são apenas alguns pontos que podem ser agravados com um governo alinhado à Frente Parlamentar da Agropecuária.

Claro que alguém pode fazer um contraponto e dizer que a situação já não é boa, e realmente não é, porque a pressão da Frente Parlamentar da Agropecuária sempre chega a quem está à frente do governo – mas isso só ganha forma de pressão em cima daqueles que não aceitam todas as suas exigências. Então se posicionar contra um presidente que já tem feito concessões ao setor é querer outro presidente que esteja mais de acordo com a sua agenda de lucros sobre danos – que não questione nada, que não coloque obstáculo em nada.

Minha análise da realidade política atual é pragmática, e não há como não ser, principalmente considerando que os eleitores continuam elegendo centenas de deputados que favorecem esse cenário desalentador. Ademais, concentrar o incômodo na figura do presidente é reducionista e até incoerente quando as transformações que ele poderia promover também não seriam possíveis se existe um Congresso Nacional na contramão disso.

Um exemplo do quanto isso é aberrante é o fato da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara, assim como a Comissão de Meio Ambiente do Senado, contar com grande presença de membros da Frente Parlamentar da Agropecuária que, claro, estão lá para a defesa de seus interesses e para frear políticas ambientais que favoreçam a preservação de espaços naturais e de animais, assim como favorecer a nós mesmos, já que hoje, mais do que nunca, dependemos do equilíbrio ecológico antagonizado pela agropecuária que tem seu poder político concentrado em âmbito nacional na FPA que exerce influência em todas as comissões-chave.

Enfim, ainda não sabemos definitivamente quem serão os candidatos em 2026, mas posso dizer que o pior será aquele apoiado pela Frente Parlamentar da Agropecuária. Tudo que tem ocorrido hoje que podemos criticar seria ampliado. Então, sim, a situação pode piorar. Isso mostra também que nenhuma bancada no Congresso deveria ter tanto poder, porque isso tira completamente o sentido democrático da justa proporcionalidade.

Observações

Lula teve de recompor o Ministério do Meio Ambiente e retomar políticas de fiscalização (mesmo com limitações). Já o candidato ideal da FPA é aquele que representa uma entrega total à sua agenda.

Dizer que o Lula é culpado por impactos decorrentes da agropecuária no país é ignorar que há uma bancada com 353 deputados (mais da metade da Câmara) e senadores (mais da metade do Senado) que é quem garante por meio de influência política a continuidade dos problemas gerados pela agropecuária no Brasil. Isso é até comemorado não apenas por políticos como pelo próprio setor, já que as críticas não chegam até eles. É preciso olhar para onde a transformação deveria ocorrer para que haja uma mudança realmente válida – que é no Congresso Nacional, onde se concentra a força legislativa de maior impacto no país. Isso torna de extrema importância o aumento da oposição à FPA na eleição de 2026.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • O atual governo não se envolve com a questão animal e ecológica como gostaríamos, compactua com práticas que prejudicam, torturam e matam animais embarcados em navios, que promovem a extinção do jumento nordestino, entretanto, dos candidatos que se apresentam, ainda se pode dizer que é o menos pior, pois o ideal seria um vegano ecologista, em sintonia com o momento presente e a emergência ética e climática.

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