De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), só a exportação de carne bovina no Brasil teve um aumento de 26,2% em 2024. Não é difícil entender o motivo. Quem tem condições de exportar, prefere receber em dólar quando a moeda está forte – garantindo um lucro líquido que pode chegar ao dobro do obtido no mercado interno. Por outro lado, o que não se discute sobre isso é que o aumento das exportações que beneficiam pecuaristas e frigoríficos encarece a carne para o brasileiro.
A dominante produção de carne no Brasil não é sobre “colocar comida na mesa do brasileiro”. Ainda assim, o setor tem o poder de manipular o preço da carne. Quando as exportações se tornam uma prioridade, o consumo interno enfrenta a alta dos preços. Com essa alta, o setor pressiona o governo por subsídios, sendo beneficiado duas vezes – por gerar o problema e por exigir solução como se não fosse responsável pelo problema.
A situação se torna mais problemática porque o consumidor paga não apenas pela carne como também pelo benefício oferecido ao setor pelo governo – e sob pressão da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) – a partir do dinheiro arrecadado com impostos pagos por milhões de consumidores (incluindo também aqueles que nem comem carne). É como pagar pela carne duas vezes e em consequência de um jogo feito por quem se beneficia disso – a alta dos preços favorecida pela carne exportada, que reflete também uma especulação do agro, e posteriormente o subsídio para reduzir o preço elevado pelo próprio setor.
A exportação de gado vivo, que quase dobrou no Brasil em 2024, segundo dados do Secretaria de Comércio Exterior (Secex), também contribui com isso – e porque vincula-se à lógica de priorizar a exportação para lucrar mais, mesmo que isso também ajude a impactar no aumento do preço da carne no Brasil. O estado que lidera esse tipo de exportação é o Pará, que também é líder em desmatamento na Amazônia, de onde saíram 56% dos bovinos exportados em 2024. Ou seja, mais lucro para quem exporta, carne mais cara para o brasileiro e mais impacto ambiental para o Brasil, além do impacto para os animais submetidos a esse sistema.
A exportação de gado vivo é mais uma peça no quebra-cabeça que sustenta o aumento do preço da carne no Brasil. Enquanto o agro comemora o crescimento desse mercado, o povo brasileiro paga a conta – literalmente. E nada do que foi apontado ocorre sem a influência e o poder político da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso Nacional. Portanto, é menos sobre poder executivo e mais sobre poder legislativo.
Mesmo quando o setor recebe subsídios em decorrência de algum impacto ambiental que afeta a produção de carne, é uma displicência ou conveniência ignorar que o setor tem responsabilidade sobre isso – basta considerar o crescente número de estudos que apontam o desmatamento, queimadas, degradação do solo e emissões de carbono gerados pela pecuária. Ou seja, um exemplo clássico de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos.
Sobre isso, também recomendo a leitura dos meus artigos: “Agropecuária tem culpa sobre o preço alto dos alimentos” e “Como a agropecuária prejudica a produção de alimentos”, já publicados na Vegazeta. Enfim, a indústria e os pecuaristas lucram mais com as exportações, mas o custo sempre é repassado à população. Qualquer ação que reduza disponibilidades no Brasil favorece um cenário de volatilidade e aumento dos preços.
Esses exemplos também servem para questionar o sentido do consumo de carne, que está além do mero ato de comer algo, se é meio de dar poder econômico e político. Isso externa, nesse exemplo que trago sobre como a hegemonia do agro influencia a alta no preço da carne e como seu poder ganha status de dominante no Congresso Nacional, o poder de lesar a população a partir do poder que a população atribui ao segmento por meio do consumo.
Outro ponto a se considerar é que quem exporta prefere destinar os melhores cortes de carne para o mercado externo. Portanto, quando a prioridade é vender para quem paga mais, isso empurra mais ainda muitos brasileiros para o consumo de carne de segunda, miúdos e até ossos – pela especulação e pela alta dos preços influenciada por essa prática.
Ou seja, a maioria dos brasileiros participa de um jogo em que comer carne é também ser prejudicado politicamente e economicamente. Enfim, há custos sociais, ambientais e de saúde.
O “jogo duplo” da FPA e do agronegócio
Quando os preços sobem muito e a população reclama, o setor pressiona por subsídios, créditos rurais e políticas de apoio, alegando “crise” ou “necessidade de competitividade”. A FPA, que tem grande influência no Congresso, garante que o governo não imponha incômodas restrições às exportações (como quotas ou taxações), mesmo que isso afete o consumidor local.
O governo como refém do agronegócio
Políticos que tentam taxar exportações em momentos de alta nos preços sofrem pressão da bancada ruralista (FPA) e risco de perder apoio político. O lobby do agronegócio é tão forte que até governos progressistas acabam cedendo para evitar crises.
Impacto para não ignorar
A expansão da agropecuária, como já apontado pelo Observatório do Clima, devasta biomas como Amazônia e Cerrado, reduzindo a umidade do ar e afetando o regime de chuvas. Como resultado, pastagens secam, produção cai, gado morre. Aí o setor pede subsídios para irrigação ou perdão de dívidas – como se não tivesse responsabilidade sobre o problema.
Exportação de gado vivo em vez de carne refrigerada
O interesse por exportar gado vivo em vez de carne é crescente no Brasil porque embarcar animais vivos exige menos estrutura do que exportar carne refrigerada (que demanda cadeia de frio e processos sanitários complexos). Na busca pela obtenção de mais lucro, isso gera mais crueldade animal (leia o artigo “Exportação de gado vivo é motivada pela ganância“) porque os animais são submetidos a longas viagens e que também geram impacto ambiental. Afinal, são muitos animais submetidos a um navio e gerando uma imensa quantidade de resíduos que é descartada no mar.
Como funciona o subsídio indireto à exportação de carne?
O Brasil tem mecanismos indiretos que barateiam o custo da produção para o mercado externo, o que também favorece os problemas já apresentados.
Crédito rural com juros abaixo do mercado:
Bancos públicos (como BNDES e Banco do Brasil) emprestam a juros baixíssimos para pecuaristas e frigoríficos.
Exemplo: Enquanto um pequeno agricultor paga 12% ao ano num empréstimo, a JBS e Marfrig conseguem taxas de 5-7% via programas como Moderfrota e Moderagro.
Resultado: O custo de produção cai e o lucro da exportação aumenta artificialmente.
Isenções fiscais para exportadores
Empresas que exportam carne têm isenção de ICMS, PIS e COFINS sobre as vendas externas.
Seguro agrícola público (mais um subsídio disfarçado)
O governo banca parte do risco de quem exporta, com programas como Proagro e subvenções a prêmios de seguro rural.
Se a seca ou uma crise sanitária atrapalhar a produção, o prejuízo é socializado (o povo paga), mas o lucro fica com o frigorífico.
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Exatamente. Esclarecer os consumidores-eleitores é urgente. Quem prefere em sã consciência colaborar com o voto para esta farra destrutiva?