Categorias: Opinião

Jejum de carne deveria ser feito todos os dias

Sobre o período que antecede a Páscoa, Tomás de Aquino escreveu na “Suma Teológica” que o “jejum de carne” foi estabelecido pela Igreja para reprimir as concupiscências da carne, cujo objeto são os prazeres sensíveis da mesa.

Acho intrigante essa passagem porque significa que as concupiscências da carne e sua associação com a primazia do paladar devem ser evitadas em um período específico, que para muitos hoje resume-se a uma data – a sexta-feira que antecede a Páscoa, que este ano será no dia 18.

Mas como subtrai-se os prazeres sensíveis da mesa se a escolha continua sendo sobre o imperativo do paladar? Afinal, as pessoas comerão, de acordo com suas possibilidades, exatamente o que desejam comer, não o que não querem comer. Para muitos, é até uma oportunidade de inovar e diversificar em relação à proteína animal. Basta pensar, por exemplo, no peixe, que é excluído desse jejum.

A ideia do “jejum” ou “abstenção” não é menos simbólica nesse caso do que imprecisa porque a escolha do que se come não é um estado de privação, a não ser para o animal comido, e sim de recorrente tradição, em que alguns animais são substituídos por outros – o que remete a nada mais do que uma variação, e não para todos se comerão algum animal que já comem em outros dias ou ocasiões.

Não comer alguns animais é considerado expressão de ascese, de uma virtude moral, em que aqueles que deixam de comer a carne de alguns animais numa data específica manifestam o controle sobre os próprios desejos. Mas que controle é esse se o que se come não deixa de ser determinado pelo desejo?

A questão da virtude moral associada a esse ato, numa ascese não ascese, então é tão problemática quanto contraditória, porque sendo virtude moral o ato de não comer alguns animais em uma data ou período específico, por que deixar de comê-los num período ou dia e não nos demais? E por que excluir alguns dessa consideração se parte-se da premissa da virtude moral?

Reconhecer também o ato de alimentar-se de animais como uma concupiscência cujo objeto são os prazeres sensíveis da mesa não deixa de induzir a uma ideia de que se nessa abstenção há uma virtude, por que essa virtude deve ser uma expressão de infrequência? Se há reconhecimento de ação moral nessa decisão, sua brevidade é justificável?

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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