Há pessoas que dizem que “não comem carne” na sexta-feira que antecede a Páscoa, mas comem peixe. Ou seja, o “não comer carne” exclui o peixe da consideração como criatura carnosa. Isso deixa o peixe abaixo de outros animais submetidos ao consumo humano. É como dizer: “Coma o peixe, que não é carne”. Mas do que é feito o peixe, senão de carne? A carne não é inerente ao peixe?
Sentem a carne do peixe, mastigam o peixe, comem o peixe, mas não reconhecem a carne do peixe, porque o peixe não pode ser percebido como criatura de carne. O que é isso que come do peixe que não carne? “Ora! Eu como o peixe!”, alguém responde. Então o termo peixe é também uma percepção do todo sobre alguém e ao mesmo tempo do nada, como numa impercepção treinada.
O peixe torna-se um termo de atribuição em que ele é o que o ser humano diz que é em uma escala inferiorizante de consumo. Uma carne para comer sem que carne possa ser. É a criatura que cabe à boca como uma matéria definida por uma indefinição em relação às outras, e não porque não possa ser definida, mas porque o peixe é excluído da definição.
Se pelo menos não reconhecer o peixe como carne fosse rejeitar sua produtificação. Mas não é sobre isso. É sobre as inconsiderações nas escalas de consumo. Não menos paradoxal é a simbologia do ato de comer peixe, que evoca vida. A vida então é representada pela morte consumada, numa evidente contradição.
O comer peixe como “não comer carne” não pode ser dissociado de seu caráter antropocêntrico e supremacista, porque não apenas priva o peixe do que é sobre sua própria constituição como o banaliza para ressignificar sua morte como vida – como se alimentar-se de peixe não fosse alimentar-se de morte.
Se o peixe não é de carne, o que é a morte para o peixe? Uma abstração que cabe dentro do que podemos ilusionar como percepção? Se o peixe comido é percebido como vida, não é pelo peixe ou pelo que o peixe constitui, logo, nessa sucessão de contradições, o peixe é excluído da percepção como criatura vivente – porque abstrai-se dele a morte ao simbolicamente atribuir-lhe sentido de vida, que é também romantizar o fim do animal para caber na perpetuidade humana.
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