Um dia, no matadouro, quando um grupo de homens iniciou mais uma jornada de atordoar e degolar bois, eles começaram a sentir uma pressão sobre seus ombros, costas e cabeça. A pressão espalhava-se aos poucos pelo corpo, até que, no início da tarde, não conseguiram mais usar os instrumentos contra os animais, nem guiá-los para a morte.
Quem trazia mais animais observava aqueles homens tortos, com corpos arqueados, que lembravam um estranho arco. Também não conseguiam olhar para frente, somente mirar os próprios pés, não por escolha e sim por consequência.
Um deles perscrutava o sangue que volteava suas galochas e chamou atenção dos outros. Sangue também volteava outras galochas. Talvez seja mais fácil ficar de quatro, alguém sugeriu. A maioria dos homens resistiu, mas cedeu quando o primeiro, que deu a ideia, conseguiu, mesmo com pressão sobre o corpo, deixar o matadouro esfregando joelhos e mãos no piso.
Lá fora, o homem da percepção primeira disse que não voltaria mais ao matadouro. No dia seguinte, mudou de ideia e retornou, assim como todos os outros. A pressão antes do início da tarde permitiu que ficassem de quatro, mas não tinham forças para sair do lugar.
De repente, começou a gotejar sangue do teto, e o gotejar virou torrente vermelha, arrastando todos para fora. Molhados de sangue e com cheiro bovino, olhavam um para o outro e já não viam quem eram. A forma humana tornou-se forma bovina, e o sangue que levou-os para fora havia desaparecido.
Três homens responsáveis pelo transporte empurraram-nos para dentro com ferrão elétrico. Teimosos, foi o que um disse. Mas lá dentro não havia ninguém para abatê-los, o que aliviou o desespero da consciência humana em corpos não humanos. Escapamos. Será?
Bateu os cascos no chão e sentiu lâmina encostando no pescoço. Veio frio, impotência e desmaiou. Quando acordou, estava sentado num canto e viu os colegas matando bois e vacas. Levantou-se e foi embora quando notou seus corpos formando um arco. Nunca mais voltou ao matadouro e entre a certeza do acontecer e do não acontecer, ainda pergunta-se: Para onde vai o peso de tantas mortes?
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Este pequeno conto me lembrou que amanhã, dia 06 de agosto, será lançado "Búfalos selvagens", da Ana Paula Maia.
Edgar Wilson, o mesmo protagonista de "De gados e homens" e de outros livros da autora, volta nessa nova história envolto numa trama de assassinatos e mistério.
De gados e homens é um livro interessante, que traz boas reflexões, tanto que há quem ache que Maia tenha sido "panfletária", mesmo que a causa animal não tenha sido, segundo a autora, o motivo principal da narrativa.
Búfalos selvagens talvez traga instigantes provocações também nesse sentido.