Categorias: Pequenas Narrativas

Onde estão os olhos dos animais que matamos?

Foto: Animal Equality

“O que é o fim de olhos saudáveis num corpo saudável?”, perguntou, olhando para um boi que mastigava porção de capim ao lado duma grande touceira. Viu seu reflexo na escuridão mansa e esférica. Não era o que queria ver.

Animais de espécies diferentes se entreolhavam, e ele questionando-se sobre a percepção não humana do olhar. O que carrega ou não carrega?

“Olha pra mim, para os outros, para o capim, para o horizonte. E o que é isso para o boi?” Não sei. É preciso saber? “Tenho curiosidade. Que há de errado nisso?”

Já ouviu dizer que a visão não é o mais importante. Pensou no matadouro. “Para onde vão os olhos que já não veem quando desconectados dum corpo quente, sem vida, que esfria?”

Viram petisco ou ração para outros animais. No prato, quem quer e como é? É ser observado pela comida. E a ideação dos olhos já independe de forma, basta ser um olho, e constatá-lo, não importando sua perda de original condição pela manipulação.

Imagem dum cachorro comendo olho de boi desidratado já deu-lhe gastura e desgosto, mas que culpa tem o pobre animal se dão-lhe o gosto, não a face? E ainda que dessem, donde vem a consciência que é exercício dominante de seus hábitos?

Não desejou aprofundar-se nisso, no depois, no comer, no não ser olho que é olho. “Não. Agora não! Nada mais sobre comer olhos.” E voltou, imaginando como seria se os olhos vivessem fora do corpo bovino após o abate.

“E se, sendo microvida, com consciência e memória, saltasse da face, espiasse e registrasse tudo? Intrigante e determinante seria se pudesse compartilhar tudo que viu com outros olhos que habitam corpos vivos. Assim os olhos seriam guias autônomos dos animais.”

Concluiu que o terror do não viver, mas que lateja na consciência por reminiscência, reduziria a desvantagem desses animais em relação à malícia humana.

“Se fossem lançados num matadouro em forma de labirinto, quando o primeiro rebanho passasse por lá, nenhum outro mais passaria…”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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