O Natal e a dor de comer animais

E a boca do animal em agonia, tão aberta como se tivesse rompido a mandíbula, dava impressão de lançar ao mundo toda a sua dor. “Que cena medonha!”

Ilustrações: Jo Frederiks/David Brown

Passou mal durante a ceia de Natal. Pediu licença e foi para o quarto. Na cama aguardou o efeito do remédio para indigestão. “Acho que comi carne demais. Na realidade, não tenho certeza, creio que nem tanto, mas por que parece que sim? É como se tivesse um animal inteiro dentro de mim.”

Percebeu que a barriga estava inchando, inchando, inchando. De repente, já não conseguiu ver as pontas dos pés. E como doía a barriga, e doía mais e mais. Ficou desesperado e quis gritar por socorro, mas já não tinha boca.

“Que faço agora?”, refletiu. “Que pesadelo! Que coisa horrível!” Quis derramar lágrimas e não as tinha. Tateou a barriga e sentiu forte pressão contra a pele que esticava como pedaço estranho e dolorido de matéria-prima. Pensou em couro e viu cabeças, pés e outras partes movendo-se dentro de si.

“Que isso agora? Que isso, meu Deus!” Quis vomitar – não conseguiu. Quis levantar – também não. A maior parte da energia do corpo concentrava-se na barriga, onde viu vida, um número indefinido. “Vou morrer, é o que vai acontecer. Sim, é isso! Acabou!” Tentava fechar os olhos, mas não os controlava.

“Como pode?” Notou que seu cheiro já não era seu. “Que dor! Que dor!” Seu corpo agitou-se com extrema violência e agarrou-se na cama com as duas mãos o quanto pode, até que seus dedos desapareceram.

“Que faço agora?” Caído no chão, sentiu cheiro de animal morto e aversão à carne. Tê-la atravessando a garganta pareceu-lhe um terrível mal, duma ordem que prescindia de mínima explicação.

“É só o que sinto e como sinto!” E a boca do animal em agonia, tão aberta como se tivesse rompido a mandíbula, dava impressão de lançar ao mundo toda a sua dor. “Que cena medonha!”

Horas depois, levantou e percebeu cheiro de churrasco. Observou o quintal vizinho pela janela e acompanhou a fumaça que se formava. Não sentiu desconforto no estômago. Só pensou nas mandíbulas que não chegam aos quintais de toda gente. “Como são numerosas…”

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