Enquanto os farristas não forem presos a farra do boi vai continuar

É inegável que onde a farra do boi acontece há algum tipo de conivência, popular e até mesmo de algumas autoridades

Animal ferido encontrado ontem na farra do boi em Governador Celso Ramos (Foto: GOR)

Nesta Páscoa, animais estão sendo perseguidos na farra do boi em Santa Catarina. A prática foi proibida no Brasil pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 1998, quando os ministros a classificaram como “intrinsecamente cruel”. Portanto, quem for flagrado participando da farra do boi pode ser condenado a até um ano de prisão conforme a Lei de Crimes Ambientais. Mas é isso que realmente acontece?

Não, se isso acontecesse a farra do boi teria sido abolida no país todo há 20 anos, e não apenas “virtualmente proibida”. É a certeza da impunidade que continua fazendo com que animais vulneráveis sejam perseguidos e feridos em cidades como Governador Celso Ramos e Itapema, além de outras do litoral de Santa Catarina.

É inegável que onde a farra do boi acontece há algum tipo de conivência, popular e até mesmo de algumas autoridades, porque senão todas as farras seriam coibidas em tempo hábil, antes mesmo que um animal fosse ferido ou capturado para ser morto simplesmente porque está “sem brinco”.

Sendo assim, acredito que a única forma de acabar com a farra do boi é fazendo com que a Lei de Crimes Ambientais (9605/1998) funcione como deveria funcionar. Ou seja, quem participa da farra do boi está cometendo crime, portanto deveria ser preso, porque se coloca em consciente posição de torturar um animal.

E para além dessa violência, quem toma parte na farra do boi também parece não respeitar muito seres humanos. Ontem, o Grupo de Operações e Resgate (GOR) e a Polícia Militar foram recebidos por farristas com gritaria e xingamentos em Governador Celso Ramos, onde recolheram um animal ferido. Como isso pode ser aceitável em 2019? Considerando a barbárie do contexto, parece que estamos falando de um episódio registrado há centenas de anos, quando as pessoas, imersas em suas ignorâncias, brigavam “pelo direito à crueldade”.

Qualquer atividade que tem um animal como alvo, seja chamada de tradição ou não, não passa de truculência, de uma expressão equivocada da ignorância e da insensibilidade humana. Se alguém convida uma pessoa para participar de algo e essa pessoa recusa, como você chamaria o ato de obrigá-la a fazer parte de algo que não é de sua vontade?

Não tenho dúvida de que alguém testemunhando tal ato, se motivado por um princípio probo de justiça, há de intervir ou se manifestar de alguma forma, porque isso também é inerente à natureza humana. E por que quando se trata dos animais não humanos continuamos a legitimar e encarar a violência até mesmo com sorrisos? Por que pessoas gargalham ao ver um animal sendo ferido?

Você rir de um boi ferido ou caído durante a farra do boi não é diferente de rir de um gato ou um cão espancado na rua e diante dos seus olhos. Violência é violência, não importando se concordamos ou não com isso. Afinal, a vítima traz consigo a expressão da própria realidade, da consequência de nossos atos, independente se você está imerso em ilusão, negação ou dissimulação.

Não deveríamos repensar nossas relações com os animais? Não seria isso no mínimo bizarro e incoerente de nossa parte? Afinal, animais não humanos também sentem dor, agonizam, sofrem à sua maneira. Somos tão ardilosos em alguns aspectos da vida em sociedade que usamos eufemismos capciosos tentando mimetizar o impacto de nossas ações, tentando maquiá-las com algo inexistente e deletério.

Estamos tão imersos em nossos mundos particulares, em satisfazer nossos anseios obsoletos e desnecessários, travestidos de cultura, que muitas vezes neutralizamos qualquer possibilidade natural de ver algo como ilegítimo, cruel e impraticável.

E, para piorar, também não há tanto o que comemorar quando um animal é “resgatado” da farra do boi. Quero dizer, poupa-se o animal de ter o seu sofrimento prolongado para um mórbido e cruel deleite humano que inclui pedradas, pauladas, mordidas de cães, bombinhas e golpes com objetos cortantes.

Por outro lado, infelizmente o animal que luta pela vida o máximo que pode não será encaminhado para um santuário onde viverá até seus últimos dias na merecida paz. Não, a vítima da farra do boi, quando não é morta pelas mãos dos farristas, é morta pelas mãos do Estado – neste caso da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc).

O destino do boi quando está sem brinco, o que é muito comum, já que os farristas o retiram para evitar a identificação da procedência do animal, é o abate sanitário sob a alegação de que animal sem brinco é animal não saudável. Mas que prova concreta se tem de que o animal não é saudável? Nenhuma, mata-se apenas para poupar tempo e recursos, pela suposta consideração da probabilidade.

O boi que sobrevive à farra nem mesmo é deixado em quarentena e avaliado por um período mínimo que possa realmente provar que ele apresenta algum risco. E no mês passado o juiz Marco Aurélio Ghis Machado, titular da 3º Vara da Fazenda Pública, em Florianópolis, indeferiu uma liminar que surgiu por iniciativa do movimento Brasil Contra Farra (BCF), se opondo ao abate dos bois resgatados.

O juiz classificou bovinos como produtos, e por entender que o gado é criado para ser fonte de alimento e matéria-prima defende que “não faz sentido mantê-los vivos”, ainda que resgatados de um tipo de violência e encaminhados para outra violência considerada “socialmente aceitável”.

Esses são os resultados da objetificação não humana. Enquanto animais forem vistos como produtos, muitos continuarão sendo sacrificados como consequência do desrespeito a outras espécies e da presunção humana.

2 COMENTÁRIOS

  1. Morei em uma das pequenas comunidades praianas de Santa Catarina por 22 anos e posso garantir à vcs,os farristas nunca serão presos nem nunca vão acabar com essa prática troglodita por um simples fato.
    A POLÍCIA OS PROMOTORES JUIZES DESEMBARGADORES SÃO TODOS ORIUNDOS DESSAS COMUNIDADES,PORTANTO CRESCERAM FARREANDO,OS FARRISTAS SÃO SEUS PAÍS, IRMÃOS,PRIMOS,TIOS,AMIGOS ETC… CONSIDERAM ESSA PRÁTICA UMA TRADIÇÃO E À CERCAM DE UM PROTECIONISMO. ONDE NINGUÉM SABE,NINGUÉM VIU, NINGUÉM FEZ.
    A ÚNICA SAIDA VIÁVEL PARA O FIM DESSA FESTA DOS HORRORES É,CONSCIENTIZAR AS PRÓXIMAS GERAÇÕES POIS ESSAS DE HOJE JA ESTÃO CONTAMINADAS PELA FARRA E TODO E QUALQUER CIDADÃO QUE SE POSICIONAR CONTRA OU INTERFERIR DIRETAMENTE CORRE SERIO RISCO DE AGRESSÃO E ATÉ DE MORTE POR PARTE DOS FARRISTAS QUE SÃO EM SUA GRANDE MAIORIA UM BANDO DE IGNORANTES BEBADOS QUE PREZAM POR SUAS RAÍZES VIOLENTAS E FACISTAS.
    CANSEI DE SER AMEAÇADO POR ME POSICIONAR CONTRÁRIO,PRINCIPALMENTE POR SER UM GAÚCHO E VIVER EM TERRITÓRIO CATARINENSE.
    AÇÕES ESCLARECEDORAS NAS ESCOLAS E BOICOTES DIRETOS SERÃO SEMPRE RECEBIDOS E RECHAÇADOS COM EXTREMA VIOLÊNCIA PIR MORADORES DESSAS COMUNIDADES E COM O APOIO DAS AUTORIDADES.
    APENAS COM LEIS RÍGIDAS E FORÇAS TAREFAS DE POLICIAIS DE OUTOS ESTADOS SERÁ POSSÍVEL DETER A SANHA DOS TROGLODITAS QUE SE SENTEM LEGITIMADOS POR TRADIÇÕES ARCAICAS QUE SÃO VENERADAS PELO VELHO COSTUME DE SE ORGULHAR EM SER UM MANÉZINHO DA ILHA. A RAIZ DO PROBLEMA ESTÁ AÍ E PARA ISSO MUDAR SÓ EDUCANDO E ESPERANDO O FIM DESSAS GERAÇÕES DE FARRISTAS.

  2. É vergonhoso ter um juiz com um pensamento tão medíocre e retrógrado como do referido “Doutor” citado na reportagem; enquanto a Europa avança nas questões de Direito Animal e Ambiental, aqui regredimos, depois ainda vem passar ferias cá, posando de educado e moderno!

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