Categorias: Contos e Crônicas

A luta do bezerro para não morrer

Ilustração: Lindsay Leigh

Após longa estiagem, a chuva desfez um barranco no arenito Caiuá, soterrando um bezerro que corria fora dos limites da fazenda. Cambuci, o capataz que costumava recolher os “bichos desgarrados”, foi até o local.

O patrão disse que poderia escolher o que fazer, porque não acreditava que ainda que sobrevivesse “daria bom negócio”. “Você decide. Só não posso enviar mais ninguém pra lá.” Cambuci já não era jovem, mas foi sozinho. Parou a caminhonete velha e mirou os faróis no lugar onde o barranco desmoronou.

“Será que continua aí? Não sei, só que não tenho coisa melhor pra fazer.” Pegou pá e enxada e começou a remover a terra molhada que tanto pesava. “Parece até que é pra não te achar. Mas pelo menos tá fofa, macia.”

Mais de cinco horas depois, todo enlameado, cansado e pensando que talvez não encontraria o bezerro, viu par de olhos escuros e uma mancha no pelo que se movia com a pouca força da cabeça.

Não sabia se estava vivo. Poderiam ser olhos sem vida, e o movimento apenas impressão. Colocou a caminhonete mais perto pra iluminar melhor.

“Agora é ver como você tá. O patrão não vai querer chamar veterinário de madrugada porque diz que sai caro.” Cambuci começou a cavar com as mãos, e suas unhas e dedos doíam.

“Se uso pá aqui é perigoso te acertar em cheio. E vai saber, né? Aí vira trabalho perdido.” O bezerro tentava se mover, mas continuava imobilizado, com a boca cheia de terra e a face amarronzada.

Ainda demorou um pouco para removê-lo, até que o deitou ao lado da caminhonete, sem o desconforto dos faróis e sem terra na boca. Olhou para Cambuci e mugiu e mugiu.

“Como pode? Parece que você tá bem.” Observou o bezerro em sua fragilidade e vontade de viver. Menos de 30 minutos depois, o animal criado para “corte” levantou, chacoalhando a terra molhada, como se nunca tivesse sido soterrado.

Cambuci não chacoalhou nada e continuou com o rosto molhado. Para o patrão, ele disse que o bezerro morreu. “E faz sentido salvar pra depois matar?”, não disse Cambuci. Nem precisou.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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