
Na semana do Natal, soltaram o leitão e ele correu pelo quintal. Tentou brincar com o cachorro, com o gato. Os dois estavam ali há anos, enquanto o leitão, há pouco tempo, sequer existia. Ele agia como se fosse parte daquele lugar, daquela realidade, daquela interação. Era como se pudesse existir ali para sempre.
Como ele via um e outro era algo a se pensar. Ali fora, poderia fazer o que os outros faziam. Por que não? Levantava a cabeça em direção ao sol, sentia a brisa, roçava o corpo nos pingos-de-ouro. Deitava e rolava onde quisesse. Disseram que parecia criança.
No almoço de Natal, lá estava ele – sem se mexer, sem sentir, sem ver. Tinha a pele queimada, a boca entreaberta, membros deformados e torcidos. Olhavam para pratos e facas. Ninguém disse que parecia criança.
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