
A vaca não queria se afastar do bezerro morto. Também não queria que tocassem nele. Ameaçava avançar se chegassem perto. Chovia e continuava ali, sem se mover. Velava com o próprio corpo. Chuva descia pelos olhos. Escorria sem parar. Parecia choro sem fim.
Tinham separado outros dela, com vida. Nunca mais viu. Morreram antes, matados. Esse também seria, sem ver, sem saber. Já não havia pressa. Não desse tipo. Voltaram a avançar. A vaca também. Por que mexer agora no bezerro? Usaram corda. Imobilizaram. Jogaram.
Ela sentia a lama que o bezerro já não sentia. Quase na mesma posição. Viu o bezerro morto mais de perto. Tentou cobrir o corpo dele. Impossível. Laço não deixava. De repente, ficou um buraco na lama molhada. Ausência do corpo pequeno. Arrastado e jogado na carriola. É assim.
Parou de comer, de beber. Falaram que começou a esconder o leite. Não queriam a vaca. Queriam o leite. Leite não saía. Gastaram e acharam que não valia. Pode ir. Não tentou resistir. Matada. Como outros que saíram dela. Pedaços no açougue também têm histórias de luto.
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