A violência vendida em forma de produtos

Ilustração: Jo Frederiks

No supermercado, começou a ler os rótulos dos produtos. “Por que usam tantos ingredientes de origem animal?” Não conseguia dar um passo sem pegar um produto e concluir que ali havia algo que foi retirado de um animal a partir de sua morte ou exploração; e reconhecidas pela ingenuidade ou conveniência como pacíficas.

“Mas o que há de pacífico em consumir algo que nunca existiu para nós? O que há de pacífico em condicionar animais há serem reféns de nossas predileções? A morte imposta a alguém em nome do prazer é pacífica? E a morte que surge como sentença da produtividade ou improdutividade não é derradeira?”

Poderia citar produtos equivalentes livres do uso de animais para todos os que encontrava, e era isso que tornava aquela realidade ordinária ainda mais estranha e reprovável. “O que há de errado com o ser humano? Por que ainda permite tanta violência em forma de produtos?”

Olhou ao redor, num passeio de olhos solitários, onde o único incômodo era o seu, e refletiu sobre como um supermercado concentra em suas fileiras tanta destruição dentro de embalagens.

“Neste corredor, o que posso dizer sobre estes produtos? Quantas vidas não humanas foram violadas e interrompidas para que chegassem às nossas mãos? E não estou falando agora de pedaços de animais mortos reduzidos a cortes que agradam aos olhos dos consumidores. Há muito mais onde ninguém está olhando…”

Pensou também em como uma embalagem bem elaborada pode ser tão desconectada da origem de seu conteúdo. “Neste pacote tem oito ingredientes de origem animal. Será que vieram de quantas criaturas? Não sei, mas, julgando pela validade, duvido que alguma delas ainda esteja viva, e há aquelas que tiveram ingredientes extraídos depois de mortas…”

Chacoalhou outro produto. “Algo tão pequeno e tão carregado de arbitrariedade. Se há beleza fora, não ousaria dizer o mesmo do que está dentro. Ingredientes com nomes estranhos, dissociativos e desconhecidos, até pela conveniência, são como carícias em uma consciência e coração que não querem ser vencidos por um despertar de consideração; porque, quando há, uma transformação é difícil de rejeitar.”

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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