“Acabe com eles”, um drama para refletir sobre a crueldade da exploração animal

No drama “Acabe com eles”, de Christopher Andrews, há uma cena em que Jack (Barry Keoghan) diz a Michael (Christopher Abbott) que “onde há gado, há animais mortos”. Essa observação no contexto do filme é reveladora do mal humano que atinge tantos carneiros e ovelhas, que são explorados para obtenção de lã e carne. Logo, um mal motivado pela posse, pelo interesse em lucrar e pela rivalidade.

Os conflitos entre as famílias de Jack e Michael se intensificam quando o pai de Michael, Ray (Colm Meaney), não deixa que o pai de Jack, Gary (Paul Ready), atravesse a sua propriedade para chegar à colina, após a queda de uma ponte, onde os ovinos das duas famílias são deixados.

Mais tarde, alguns ovinos criados por Michael e Ray somem como retaliação pela má vontade de Ray. Além de os animais não serem devolvidos, são encontrados à venda em um leilão. No local, vemos ovinos agitados com tinta no dorso, que identifica o sexo. Mas a tinta não marca apenas isso. Também ratifica a arbitrariedade da posse sobre os animais, e que são tratados como se não fossem mais do que um meio de obter lucro.

Depois, Jack e o primo Lee (Aaron Heffernan) vendem para o comércio ilegal de carne um ovino já morto. Quando a compradora diz que paga 15 euros por perna de carneiro, eles sobem a colina para arrancar as pernas de todos os animais que Michael pastoreava. Eles deixam carneiros e ovelhas vivos, agonizando, sem pernas – dando origem a uma sinfonia macabra e terrível de sofrimento.

As cenas, embora fictícias, claro, são bem pesadas. É impossível não sentir empatia por esses animais. Mas nada disso seria uma realidade se eles já não tivessem sido instrumentalizados e produtificados, portanto reduzidos a meros recursos.

O que ocorre no drama é que isso é levado a um novo nível quando o anseio pelo lucro rápido, e possivelmente um desejo por vingança, faz com que esses ovinos sejam vistos menos ainda como animais que merecem consideração. O especismo fortalece essa percepção e esses interesses.

Sobre a vingança, Michael havia quebrado o farol do carro de Lee quando Lee ficou buzinando para ele, tentando forçá-lo a tirar os ovinos da estrada quando ele os pastoreava. Já Jack tem a motivação dos problemas financeiros enfrentados pelo pai e de como seu pai se sentia incomodado com Michael e Ray. Não por acaso, Lee insiste que é “um bom dinheiro”, que eles podem ir para Dublin (o filme se passa em uma área rural da Irlanda).

Essa rivalidade entre as famílias ganha uma forma extremamente brutal que custa muito mais caro para carneiros e ovelhas, referenciados também no filme como “gado”, que leva também a uma abstração, já que tira a especificidade sobre quem são, principalmente como indivíduos.

As cenas de mutilação, mesmo irreais, são bastante desconfortáveis porque faz pensar no sofrimento desses animais – o que torna impossível não pensar em suas capacidades e em como os interesses que são normalizados em relação a eles pode levar a situações de ampliação da crueldade.

Incapaz de mutilar os animais com as próprias mãos, Jack começa a capturá-los para que Lee o faça. Jack se arrepende. Mas é tarde demais. Quando deixam a propriedade e vendem as pernas dos ovinos, ele abandona o primo e diz que nunca mais quer vê-lo. Jack volta para casa a pé e conclui tardiamente que não, não é um bom dinheiro, se ponderados os custos.

Quando encontra os ovinos, embora lamente pela morte deles, e não sabemos se o que o incomoda mais é a situação dos animais ou o fato de ter uma fonte de renda comprometida, Michael só se emociona profundamente e vai às lágrimas quando percebe que o cachorro Mac, usado no pastoreio, foi esfaqueado, morrendo pouco depois.

Mesmo que o fim dos ovinos tenha sido mais brutal, e testemunhamos Michael sacrificando um deles, a emoção que ele manifesta pelo cão não é compartilhada com os outros animais, porque a relação estabelecida com eles é diferente, ainda que lamente pelo que houve com eles – são uma fonte de renda, representam a atividade econômica familiar.

A forma como os ovinos são degolados em “Acabe com eles”, o som de um estalo, os balidos constantes, geram um inevitável desconforto, mesmo que as cenas não sejam reais, e que não desaparece logo do pensamento. Depois vemos Michael carregando o cachorro nos braços e ao fundo muitos ovinos caídos.

A crueldade praticada por Lee e Jack também tem uma mórbida motivação prática – para eles, é mais fácil arrancar somente as pernas e transportá-las, se a demanda é pelas pernas. Assim o pedaço mais valorizado de um animal em um contexto motiva um interesse em arrancar esse pedaço, não importando a experiência momentânea e sequer posterior para o animal. É uma faceta visceral resultante do especismo, que culmina em uma crueldade não reconhecida por quem a pratica como crueldade.

Isso leva a pensar também em como muitas pessoas compram e consomem partes de animais sem sequer pensarem em quem foi privado delas – ou mesmo em como essas partes faziam parte de um animal. Afinal, saber não significa ponderar. Ademais, se a compradora de carne para revenda ilegal deixa claro que eles poderiam lucrar com “pernas de ovinos” é porque, além de ser vantajoso para ela, é uma demanda que só existe por causa dos consumidores.

Acredito que muitos dos que assistiram “Acabe com eles” não conseguiriam comer carne durante o filme ou logo após o filme. É um incômodo que não deveríamos esquecer porque evoca o que é real para tantos animais o tempo todo com base no consumo – o sofrimento e a morte.

Observações

A transação envolvendo as pernas recém-arrancadas de ovinos torna explícito e incômodo o reconhecimenro da carne como parte de animais, e porque isso ocorre de uma forma comumente irrefletida.

O filme também permite pensar na relação entre capitalismo e crueldade animal, já que a crueldade praticada por Lee e Jack é motivada por um interesse pelo lucro rápido, e o lucro pensado nesse contexto como sendo um objetivo que justifica tal crueldade ignorada como crueldade. Essa relação, porém, não seria possível sem a precedência e dominância do especismo, que antecede as relações de comércio no capitalismo.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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