Algo brilhava dentro do forno

Cada bolinha no corpo do Pintado representava uma semana de vida que ele já não teria

Algo brilhava dentro do forno, e não era papel alumínio, mas a pele untada de um pintado inteiro que trepidava. Quando o tiraram do forno, toda a gente viu seus olhos vacilantes que respondiam à boquinha tremulante. As únicas partes que não foram marcadas pelo fogo. Ainda tinha vida.

Seu couro parecia envernizado, e quando tentaram tocá-lo, queimaram os dedos. Era o carimbo da natureza, denunciando que cada bolinha no corpo do Pintado representava uma semana de vida que ele já não teria. Enquanto o peixe agonizava, Manuela gritava. Com o barulho, o pintado se lançou no chão da cozinha.

A criança se afastou, e quando alguém ameaçou colocá-lo de novo no forno, Manuela berrou: “Não! Não! Não!” Enrolou o peixe já sem vida em um lençol branco, caminhou até o quintal e o enterrou no jardim, ladeado por um pé de Jasmim. Deu a ele o nome de Querubim, afirmando que quem nasce nadando morre voando.

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