Andrey Beketov: Abater animais é se opor ao respeito à vida

“Estamos todos tão acostumados a comer ou ver outras pessoas comendo carne, que nunca ponderamos que aqueles cujas partes estão diante de nós em nossos pratos foram abatidos"

Na perspectiva do cientista russo, a aversão a qualquer derramamento de sangue é um primeiro sinal de humanidade

Andrey Nikolayevich Beketov foi um cientista russo e defensor do vegetarianismo que ficou conhecido como o pai da botânica russa e mundial, além de criador da geografia das plantas e da morfologia experimental. Além disso, foi reitor da Universidade de São Petersburgo, uma das mais prestigiadas da Rússia, e um dos homens que influenciou o escritor Liev Tolstói a adotar o vegetarianismo.

Em 1891, Andrey Beketov publicou o livro “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”. Na obra que chamou a atenção de Tolstói, ele apresenta razões morais e psicológicas sobre o porquê os seres humanos na sua progressão de um estado primitivo para um estado verdadeiramente civilizado devem se abster do consumo de animais.

De acordo com o pesquisador Alexey Shulga, o trabalho de Beketov pode ser considerado o primeiro ensaio russo sobre vegetarianismo que deu origem ao movimento de educação e moral científica na Rússia, cuja preocupação era superar o paradigma de que alimentos de origem animal são produtos “comuns” gerados por uma condição de “inevitabilidade”, desconsiderando o viés imoral e prejudicial aos animais não humanos – além dos efeitos na saúde humana e no meio ambiente.

“Estamos todos tão acostumados a comer ou ver outras pessoas comendo carne, que nunca ponderamos que aqueles cujas partes estão diante de nós em nossos pratos foram abatidos. Em algum lugar fora da cidade, há um matadouro, lugar nojento, fétido e sangrento, onde cortam, retalham e fatiam, escoando o sangue das veias [dos animais], mas ninguém está olhando para lá”, registrou em “A Dieta Humana no Presente e no Futuro”.

Beketov reconheceu que o hábito de matar animais e consumi-los já era naturalizado pela legitimada artificialidade da tradição, e que a mudança depende das pessoas relacionarem o que consomem com a história do que está sendo consumido. Ou seja, o processo que antecede o contato do consumidor com o produto de origem animal. Na perspectiva do cientista russo, a aversão a qualquer derramamento de sangue é um primeiro sinal de humanidade. O “abate de um animal sem voz”, segundo o autor, se opõe ao respeito à vida.

“Parece-me que esses dois matadouros estão em uma conexão muito mais forte do que normalmente pensamos: a carne e a bucha de canhão são duas coisas que se pressupõem ou pelo menos apoiam umas às outras”, escreveu. Andrey Nikolayevich Beketov acreditava que o sistema digestivo humano sempre se adaptou melhor ao consumo de plantas, vegetais e frutas, não de alimentos de origem animal. “Ele também considerou a prática da agropecuária ineficiente, chamando a atenção para o fato de que é sempre mais caro plantar e produzir vegetais para alimentar os animais do que consumir diretamente os vegetais; e que a dieta vegetariana pode satisfazer todas as necessidades nutricionais humanas”, enfatiza Shulga.

Como um visionário do século 19, Andrey Beketov também declarou à época que no futuro a Terra iria requerer uma diminuição de pastagens e uma redução natural do gado e de outros animais criados para consumo. Segundo o pesquisador V. K. Teplyakov, antes de Charles Darwin apresentar a sua teoria de “A Origem das Espécies”, Beketov já havia divulgado a ideia da influência de fatores externos e da luta pela sobrevivência na evolução dos organismos.

Suas primeiras e importantes contribuições à ciência aparecem no livro “Harmonia na Natureza”, que antecede “A Origem das Espécies”, em que ele apresenta princípios cientificamente fundamentados da teoria do desenvolvimento evolucionário no mundo orgânico. Na perspectiva de Beketov, a matéria pode assumir uma infinita variedade de formas, mas de modo algum pode escapar à influência de condições externas – a estrutura, a aparência externa e a essência de cada ser são determinadas pelas condições ambientais. Ele também descobriu o papel da luz no ciclo da vida das plantas.

Em 1862 e em 1871, o cientista russo publicou os volumes I e II do trabalho científico “Curso Botânico”, considerado o primeiro e melhor livro de botânica do mundo. “Graças ao seu trabalho, ele foi chamado de pai da botânica russa e mundial. Também foi o primeiro no mundo a escrever e publicar um livro sobre geografia vegetal”, destacou Teplyakov em referência à obra “A Geografia das Plantas”, de 1896.

Em 1870, o renomado cientista K.A. Timiryazev escreveu que os textos de Beketov foram únicos na literatura europeia e estavam pelo menos 50 anos à frente de seu tempo em princípios científicos. Andrey Nikolayevich Beketov faleceu em 1º de julho de 1902 em Shakhmatovo, em Moscou, deixando um extenso legado que até hoje permanece desconhecido por muita gente, inclusive da área botânica.

Beketov foi um dos fundadores do Cursos Bestuzhev, que oferecia educação de alto nível às mulheres

Andrey Beketov nasceu em 8 de dezembro de 1825 no vilarejo de Apferevka, na província de Penza. Em 1841, se graduou em ciências naturais pela Faculdade de Física e Matemática de Kazan. Em 1858, concluiu o doutorado sobre o tema “As Relações Morfológicas das Folhas e Caules” na Universidade de Moscou. Tornou-se professor de botânica da Universidade da Cracóvia em 1861, depois transferindo-se para a Universidade de São Petersburgo, onde atuou como professor e coordenador do Departamento de Botânica. Mais tarde, ocupou o cargo de diretor da Faculdade de Física e Matemática e, então, reitor da mesma instituição, função exercida entre 1876 e 1883.

Beketov, que fundou a Scripta Botânica em parceria com Kristofor Gobi, a primeira revista russa de botânica, também se destacou como um dos fundadores da Sociedade Econômica Livre da Rússia, que presidiu de 1891 a 1897. Também foi um dos fundadores do Cursos Bestuzhev, em São Petersburgo, um instituto que possibilitava às mulheres receberem educação de alto nível na Rússia Imperial. “Ele foi o primeiro a estudar o  problema da reprodução florestal na tundra. Ficou intrigado com os efeitos do clima na taxa de crescimento de pinheiros e abetos. Sua pesquisa em flora e geotecnia o levou a investigar a distribuição de espécies madeireiras e as razões do desmatamento das estepes. Ele sugeriu que a propagação das estepes se resultou principalmente de mudanças climáticas e fatores pré-históricos”, informou V. K. Teplyakov.

Saiba Mais

Andrey Beketov traduziu para o russo muitos trabalhos seminais de Alphonse Pyramus de Candolle, August Grisebach, Matthias Jakob Schleiden e Thomas Henry Huxley.

Referências

Shulga, Alexey. The History of Russian Veganism: In a Nutshell (2015).

Teplyakov, V.K. A History of Russian Forestry and Its Leaders. Página 23. Diane Publishing (1998).

Shcherbakova, A.A. Andrey N. Beketov, Андрей Николаевич Бекетов –  выдающийся русский ботаник и общественный деятель. Издательство Академии наук СССР (1958).

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