
Quando vejo uma imagem de pistola ou marreta pneumática, utilizadas no eufemístico “atordoamento” de bovinos, reparo em como o ser humano não apenas dedicou-se a criar algo para inutilizar o cérebro de um animal antes de degolá-lo, mas também o desenvolveu de forma a fazer com que as pessoas não a vejam como algo terrível.
A percepção reinante é de que trata-se de um “instrumento”, uma “ferramenta”, algo que serve a um objetivo tão almejado em uma plataforma industrial. Embora compreendemos que o simples ato de matar alguém seja assassinato, se isso ocorre em um contexto institucionalizado e como prática legal a compreensão de assassinato é rejeitada.
Mesmo que o animal tenha o crânio perfurado e seja destinado a um espaço em que será golpeado fatalmente na garganta, há uma resistência comum à ideia de que trata-se de um assassinato, e assim o animal não é reconhecido como vítima de seu próprio fim, mas apenas como “produto de um processo”.
Então matá-lo é como se não fosse matar, não importando o corolário da ação, sua consequência. Assim morre-se também sem o direito de ser reconhecido como quem morreu – como se “algo” tivesse apenas deixado de estar ali, como um “elemento transicionado”, transformado em “outra coisa”, porque como “coisa” há sempre um reconhecimento precedente e outro posterior, da mobilidade à imobilidade.
A não associação do ato imperativo de matar um animal com a concepção de assassinato, e porque sua morte não somente é legalizada/regulamentada como constantemente estimulada e desejada, também é reforçadora da percepção de que o animal na plataforma de um matadouro não é um indivíduo, porque se reconhecido como indivíduo fosse, como seria negada sua condição de vítima de um assassinato?
A ideia de vítima também é refusada em relação a esses animais. Eles não são percebidos assim, e porque para isso seria necessário antes reconhecê-los como sujeitos. Então um animal na plataforma, privado da percepção de sua constituição como alguém, é uma representação construída para ser alvo de uma violência terminativa.