Aristóteles e sua contribuição à negação dos direitos animais

Foi exatamente essa negação aristotélica que formou parte da base da atitude cristã ocidental

E esse aspecto da filosofia aristotélica teve continuidade com influentes pensadores como o italiano Tomás de Aquino (Foto: Creative Commons)

Embora a sua contribuição à filosofia ocidental seja inegável, o interesse de Aristóteles (384-322 a.C) pela questão animal sob uma perspectiva filosófica difere substancialmente do interesse de seus discípulos, como Teofrasto, que reconheceu o direito à vida animal não humana. O caso de Aristóteles contra a racionalidade animal tinha aspirações parcialmente científicas, sem ponderar sobre as consequências morais de seus argumentos.

E foi exatamente essa negação aristotélica (encontrada, por exemplo, em De “Partibus Animalium”, escrito em 350 a.C) que formou parte da base da atitude cristã ocidental em relação aos animais como criaturas que poderiam ser privadas de justiça e da própria existência, e mais – que poderiam ser usadas como o ser humano bem entendesse. Também foi esse caminho trilhado por Aristóteles, sem antever o futuro, que impediu que teorias filosóficas mais empáticas aos animais, como as de Pitágoras, Teofrasto, Plutarco e Porfírio fossem lançadas à luz, não à escuridão.

Aristóteles fez franca oposição ao discurso do filósofo protovegetariano Pitágoras ( 570-495 a.C) contra a matança de animais. E como o discípulo de Platão enquanto filósofo obteve muito mais êxito no Ocidente, inclusive endossando uma consciência antropocêntrica que reconhecia os animais apenas como seres disponíveis ao uso humano, a filosofia de Pitágoras acabou obscurecida e relegada a um universo menor.

Já Aristóteles, que rejeitou a possibilidade da racionalidade animal não humana, pesando contra os animais a concepção da “racionalidade matemática”, que o levava a ver os animais como sujeitos sem qualquer direito que justificasse não consumi-los ou usá-los, ajudou a formar parte da base da atitude cristã ocidental, defendendo assim que criaturas sencientes não humanas poderiam sim ser privadas de justiça e da própria existência, já que isso beneficiaria uma espécie superior, ou seja, a espécie humana.

No entendimento de Aristóteles, os animais “irracionais” não possuem capacidades mentais para assegurar que seus interesses sejam respeitados. Por outro lado, o seu discípulo Teofrasto, além de reconhecer a existência do intelecto animal, viu exatamente nessa suposta incapacidade animal apontada por Aristóteles uma razão moral para que os seres humanos não se colocassem acima dos animais nem se aproveitassem de sua vulnerabilidade. E esse aspecto da filosofia aristotélica teve continuidade com influentes pensadores como o frade italiano Tomás de Aquino. Assim não é equivocado dizer que a consciência antropocêntrica que persiste ainda hoje é uma consciência de influência aristotélica.

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