Artista alemão explora violência do consumo de carne

Nenhum animal se inclina diante de nós pedindo para ser explorado, degolado, eviscerado e dividido em pedaços

Pense na origem da carne que chega à boca de tantas pessoas todos os dias (Ilustrações: Roland Straller)

Quando falamos em violência, logo pensamos em humanos agredindo humanos. A maioria pouco considera que há outras formas de violência recorrentes e legitimadas em nosso cotidiano como parte de uma realidade aceitável.

Um exemplo? Pense na origem da carne que chega à boca de tantas pessoas todos os dias; e não somente da carne, mas também de outros produtos de origem animal que envolvem subjugação, violência ou no mínimo uma apropriação indevida.

Nenhum animal se inclina diante de nós pedindo para ser explorado, ordenhado, confinado, degolado, eviscerado e dividido em pedaços. A disponibilidade de tudo que qualificamos como alimento ou ingrediente e que tem animais como fonte ou matéria-prima não existiria sem que submetêssemos tantas criaturas ao nosso domínio.

E tal domínio vinculado à violência que somos capazes de impor a animais de outras espécies é o que ampara a arte do alemão Roland Straller, que se tornou vegetariano em 1999 e mais tarde vegano.

Ao reconhecer o quanto podemos ser arrogantes na nossa relação com outras espécies, Straller concebeu um estilo que combina o cru, o taciturno, o simbólico e o satírico.

É recorrente em suas obras a ausência de luz, provável referência ao fato de que quando subjugamos os animais os lançamos à escuridão da nossa displicência, da nossa negação em enxergá-los como são por um fator de conveniência.

“É mais fácil comer sem reconhecer”, pode-se dizer. Um porco sendo perseguido por talheres sangrentos ou segurando a própria faca a ser utilizada em sua degola com um olhar que parece mimetizar o nosso (mas nos desafiando a matá-lo), assim como uma galinha poedeira sem vida tendo seus ovos colhidos no pós-morte como se fossem “tesouros”, reforçam a ideia do quanto não vemos esses animais como indivíduos dignos de qualquer direito, mas apenas vítimas fatais de uma mecânica que privilegia os prazeres do nosso paladar.

E, claro, o porco e a galinha, como ilustrado por Roland Straller em duas de suas ilustrações, podem morrer tanto durante o período de suas vidas em cativeiro quanto sob a violência do abate, destino final de todo animal criado sob a primazia do consumo.

O vermelho, o preto e o cinza são as cores mais recorrentes na arte do alemão, e combinadas representam a gradação da violência que culmina em morte a favor dos nossos prazeres por carnes, ovos e laticínios. O vermelho remetendo ao sangue, o preto à escuridão ou vacuidade (já que não vemos nada além) e o cinza à negligência ou inexistência.

O artista alemão também já propôs uma inversão de papéis na relação entre animais humanos e não humanos. Na série “Got Milk?”, ele convida os consumidores de leite a passarem um dia na pele de vacas leiteiras exploradas em regime industrial.

Suas obras transmitem uma atmosfera sepulcral e destacam a perversidade semeada pela indiferença e pela legitimação de um caos desejável que ainda parece invisível aos olhos da maioria.

Em um cenário rosa, mas de pouco brilho, para não dizer opaco, uma garotinha com um olhar sério segurando um garfo como se estivesse prestes a furar um leitãozinho é uma referência ao momento em que as crianças já estão imersas em um contexto de naturalização da violência contra os animais – a maioria, infelizmente, e por influência do meio, chega lá, mais cedo ou mais tarde.

No entanto, com base na ilustração de Straller, vale a pergunta: “Quando foi que corrompemos a nossa capacidade de ter empatia e compaixão por outros animais?” Independente da resposta, há sempre tempo de resgatá-las.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here